Trecho de livro

Caetano Veloso: Transa

A escritora Mateus Baldi faz uma análise musical e histórica de “Transa”, álbum gravado durante o exílio e um “disco-mapa” para o Brasil de Caetano

Leonardo Neiva 31 de Julho de 2026

Mais de 50 anos após seu lançamento original, em 1972, o álbum “Transa” é hoje amplamente reconhecido como um dos melhores trabalhos de Caetano Veloso. Por trás de suas sete músicas, a maioria delas com nomes e letras parcialmente em inglês, há também muita história. Apenas o quarto disco solo do artista baiano, foi também o segundo gravado durante o exílio em Londres, em tempos de perseguição pela ditadura militar. A escritora carioca Mateus Baldi destrincha muito dessa riqueza musical e histórica que mora no álbum em “Caetano Veloso: Transa” (Cobogó, 2026), novo volume da coleção O Livro do Disco, que aborda algumas das principais obras de artistas como Gilberto Gil, Racionais MC’s, David Bowie, entre vários outros.

Um dos principais pontos que a autora levanta nesta espécie de biografia do disco é a mistura: não só do português com o inglês, mas também do samba com o rock, do reggae com referências ao cancioneiro nordestino — um eco da própria condição do artista exilado entre dois países e duas culturas. Gravado ao longo de quatro sessões no segundo semestre de 1971, com acompanhamento de músicos como Jards Macalé, Tutty Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Souza, aqui nasce um Caetano mais acústico e intimista, que se despe dos arroubos tropicalistas.

Autora dos livros de contos “Os Anos de Vidro” (Nós, 2025) — leia um trecho aqui —, vencedor do Prêmio APCA 2025, e “Formigas no Paraíso” (Faria e Silva, 2022), Baldi traça em detalhe momentos-chave para a criação de “Transa”, como a partida para o exílio e os bastidores das gravação, além da recepção do disco pela imprensa da época. Mestra em literatura, cultura e contemporaneidade pela PUC-Rio, a escritora havia iniciado o mergulho no álbum ainda no mestrado, quando pesquisou arquivos musicais, vídeos de bastidores e fez entrevistas com Macalé, diretor musical do disco, e Moreno, baterista e arranjador. O resultado é uma história profunda sobre aquele que Baldi considera o “disco-mapa” do Brasil que Caetano trazia dentro de si.

Leia um trecho do livro “Caetano Veloso: Transa” abaixo.


Gravar em inglês era um ponto importante para Caetano desde o final da década de 1960, quando compôs as primeiras músicas no idioma, que acabariam entrando no disco de 1969. Conta ele que era bombardeado pela língua inglesa o tempo todo: o rádio tocava mais músicas em inglês do que em português, os produtos, os anúncios, as casas comerciais usavam o inglês em todos os seus materiais. Era justo que pudesse usá-lo como bem quisesse, devolvendo ao mundo “esse inglês mal aprendido, fazendo-o veículo de um protesto contra a própria opressão que o impunha a nós”. Em resumo, uma tentativa de abrir “um respiradouro nesse universo fechado que é o Brasil”. A canção que compôs então, “Lost in the paradise”, era “um grito de socorro às avessas”. Havia ali uma ruptura, uma rasura na escrita artística. Para usar o verbo empregado pelo próprio Caetano, há um novo design nessa devolução — décadas depois, na conferência “Diferentemente dos americanos do Norte”, ele escreveu: “devemos estar à vontade na versão de Ocidente que veio do Norte. E superá-la.”

Para todos os efeitos, Transa é um disco-mapa.

Era justo que pudesse usá-lo como bem quisesse, devolvendo ao mundo ‘esse inglês mal aprendido, fazendo-o veículo de um protesto contra a própria opressão que o impunha a nós’

O geógrafo, cartógrafo e historiador de mapas John Brian Harley classifica mapa como “tanto um inventário, um ato de posse que propicia a vigilância e o controle jurídico do território, quanto um panorama que permite a atuação sobre o mesmo”. O disco de Caetano é exatamente isso. Vejamos: através das múltiplas incorporações do cancioneiro brasileiro às faixas em inglês, justapondo-as e chegando a uma terceira obra, temos um inventário e um ato de posse em relação ao país. O controle do território — um Brasil íntimo de seus afetos —, se não é jurídico é sentimental, e para um homem escorraçado de sua terra pelo Estado há poucas coisas tão jurídicas quanto esse domínio. Por fim, o panorama se insere na mesma chave do inventário, e é aqui um panorama afetivo, que recupera, entre outras músicas, a “Reza” de Edu Lobo, membro da turma que “reagira mal” ao que vinha sendo feito no Tropicalismo, nas palavras de Caetano, talvez por não vê-lo como uma tentativa de ser o mais fiel possível à essência revolucionária, violenta, da Bossa Nova.

Falamos sobretudo de Transa como mapa no sentido de que entrega ao ouvinte um país de possibilidades, em oposição à costura de morte e sangue que a ditadura militar forjava nos porões. Há aqui algo de genuíno na tessitura de um disco cuja organicidade soa como uma bússola para se orientar em meio à devastação.

Falamos sobretudo de Transa como mapa no sentido de que entrega ao ouvinte um país de possibilidades, em oposição à costura de morte e sangue que a ditadura militar forjava nos porões

Se a rodovia Transamazônica que os militares queriam ouvir era a estrada que simbolizava o Brasil Grande, Transa é, ao contrário, um Brasil Grande em espírito, sem brutalismos, um caminho aberto no terreno esturricado do morticínio promovido pelo Estado. O país promessa-de-futuro-do-mundo que Caetano tanto manifesta em sua obra.

Em oposição frontal ao clima do disco anterior, Caetano instaura um álbum de aparência preto-cinza-vermelho, cujo som é essencialmente solar.

Imaginemos um incêndio em que nos é dada a possibilidade de resgatar pequenas peças do imóvel para que a vida seja reconstruída em outro lugar. Caetano vai embora do Brasil incendiado e leva consigo as imagens-guia. Os sons. As palavras que lhe permitem montar um totem que servirá de condução na nova terra — o exílio, “um período de fraqueza total”. Portanto, surgida sob a forma de um trabalho que consistia na primeira tentativa de criar um som a partir das ideias de Caetano, a reconstrução se funda na inadequação, no sentimento torto que perpassa cada faixa de um vinil: os sulcos rangem um desconforto por coisas díspares sendo unidas, e a cada troca de faixa tem-se um mistério, um inesperado, como quando o que era samba pra cima ressurge num lamento pulsado pelo ataque do rock.

Os sulcos rangem um desconforto por coisas díspares sendo unidas, e a cada troca de faixa tem-se um mistério, um inesperado

O que se tem antes do retorno ao Brasil é a fúria e a anti-inércia de quem precisa se afirmar vivo para não mais ser o camarada de Portobello que Gilberto Gil viu cair.

Produto

  • Caetano Veloso: Transa
  • Mateus Baldi
  • Cobogó
  • 200 páginas

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