Trecho de livro

A Trama das Árvores

Romance vencedor do Pulitzer, de Richard Powers, explora a relação muitas vezes invisível entre homens e árvores

Leonardo Neiva 18 de Abril de 2025

Raramente pensamos em como as árvores integram o nosso dia a dia e até alguns dos momentos mais marcantes da nossa vida. Uma parte do que o escritor norte-americano Richard Powers faz em “A Trama das Árvores” (Todavia, 2025) é nos lembrar disso. A obra vencedora do Prêmio Pulitzer de Ficção de 2019, no entanto, vai muito além desse aspecto, num engenhoso romance que entrelaça as histórias de nove personagens numa missão improvável: salvar os últimos quilômetros de floresta virgem que restam no continente americano.

Dividido em quatro partes que refletem as seções de uma árvore (raízes, tronco, copa e sementes), o livro se inicia com histórias separadas e aparentemente sem conexão alguma entre elas — a não ser, é claro, sua relação com as plantas. Uma figueira-de-bengala salva um oficial da aeronáutica de uma imensa queda; um artista herda cem anos de fotos de uma mesma castanheira; uma cientista descobre que as árvores são capazes de se comunicar. São essas as narrativas que começam a se cruzar de maneiras improváveis, mas impactantes, ao longo de mais de 600 páginas.

Assim como em “Deslumbramento” (Todavia, 2023), Powers coloca em destaque absoluto o conflito essencial vivido pelo planeta: aquele entre humanos e não humanos. Vasto, lento e inventivo como as verdadeiras protagonistas da obra, “A Trama das Árvores” descortina à nossa frente um universo próximo ao nosso, mas praticamente invisível. Essa história é sobre algumas poucas pessoas que aprenderam a enxergar esse outro mundo, assim como a catástrofe prestes a destrui-lo. É como descrito no prefácio: “A sua espécie nunca nos vê por inteiro. Você perde a metade, e mais. Há sempre abaixo do solo tanto quanto há acima”.


Quais são as árvores que florescem antes de folhar, e quais florescem depois? Por que as folhas no alto das árvores são geralmente menores do que as da parte de baixo? Se você escrever seu nome a um metro de altura na casca de uma faia, em que altura ele vai estar depois de meio século?

Ela adora a resposta da última: Um metro. Ainda um metro. Sempre um metro, não importa o quanto a faia cresça. Ela ainda vai amar essa resposta, meio século depois.

Dessa maneira, o animismo de bolota pouco a pouco se transforma em seu descendente, a botânica. Ela se torna a estrela do pai e sua única pupila pela simples razão de que apenas ela, em toda a família, pode enxergar o que ele sabe: as plantas são obstinadas, astutas e estão atrás de algo, assim como as pessoas. Ele conta a ela, enquanto dirige, sobre todos os milagres oblíquos que o verde é capaz de inventar. Não são só as pessoas que têm comportamentos curiosos. Outras criaturas — maiores, mais lentas, mais duráveis — tomam as decisões, fazem o clima, alimentam a criação e criam o próprio ar.

“As árvores foram uma ótima ideia. Tão boa que a evolução continua inventando elas, de novo e de novo.”

Ele a ensina a diferenciar uma nogueira-americana de uma nogueira-branca-americana. Ninguém da sua escola sequer sabe a diferença entre uma nogueira-amarga e um carvalho-americano. Ela considera isso bizarro. “Meus colegas acham que uma nogueira-preta se parece muito com um freixo-americano. Eles são cegos?”

“Cegos pra plantas. A maldição de Adão. Só vemos as coisas que se parecem com a gente. História triste, né, filha?”

O pai dela tem um pequeno problema com o Homo sapiens. Está em uma posição difícil. De um lado, há os agricultores cujas propriedades familiares não estão conseguindo subjugar a terra; de outro, as empresas que querem vender-lhes o arsenal para o domínio definitivo. Quando a frustração com o dia chega a níveis muito altos, ele suspira e diz, apenas para os ouvidos debilitados de Patty: “Ah, me compra uma encosta que fique de costas pra cidade”.

Eles dirigem por um lugar que já foi coberto por uma floresta de faias escuras. “A melhor árvore que se pode encontrar.” Forte e larga, mas cheia de graça, uma base bojuda e nobre, o seu próprio pedestal. Generosa, produz nozes que alimentam todos que aparecem. O tronco liso, branco-acinzentado, é mais pedra do que madeira. As folhas cor de pergaminho que sobrevivem ao inverno — marcescente, ele diz a ela —, brilhando ao lado de outros troncos nus de madeira de lei. Elegantes, de galhos robustos parecidos com braços humanos, virando para cima nas pontas como mãos oferentes. Nebulosas e pálidas na primavera, mas, no outono, seus galhos de brotos, chatos e largos, banham o ar de dourado.

As plantas são obstinadas, astutas e estão atrás de algo, assim como as pessoas

“O que aconteceu com elas?” As palavras da garota ficam espessas quando a tristeza se apossa delas.

“Nós acontecemos.” Acha que ouve o pai suspirar, ainda que ele nunca tire os olhos da estrada. “A faia disse ao fazendeiro onde arar. Calcário por baixo, coberto pela melhor e mais escura terra com a qual um campo poderia sonhar.”

Eles vão de fazenda em fazenda, entre as pragas do ano passado e o solo superficial desgastado do ano que vem. O pai mostra a ela coisas extraordinárias: o câmbio cortical de um plátano que engoliu o quadro de uma velha bicicleta, deixada ali por alguém há décadas. Dois olmos que abraçaram um ao outro e se tornaram uma única árvore.

“Sabemos tão pouco sobre o crescimento das árvores. Praticamente nada sobre como elas florescem, se ramificam, perdem as folhas, se curam. Aprendemos sobre algumas dessas coisas, isoladas. Mas nada é menos isolado e mais social do que uma árvore.”

O pai é sua água, seu ar, sua terra e seu sol. Ele a ensina como ver uma árvore, a bainha viva de células sob cada centímetro de casca, que faz coisas que nenhum homem ainda é capaz de compreender. Dirigem até um bosque de madeira de lei que foi poupado, no fim de um riacho lento. “Aqui! Olha isso. Olha isso!” Um grupo de árvores de hastes finas, cada uma com folhas grandes e caídas. Um cão pastor vegetal. Ele a faz cheirar a folhagem gigante em forma de colher, depois de esmagá-la. Tem um cheiro acre, como asfalto. Ele pega no chão um fruto grande e amarelo e o segura diante dela. Poucas vezes ela o viu tão animado. Ele puxa o canivete e corta a fruta ao meio, expondo a polpa amanteigada e as sementes pretas brilhantes. A carne a faz ter vontade de gritar de prazer. Mas sua boca está cheia de pudim de caramelo.

Pawpaw! A única fruta tropical que escapou dos trópicos. A maior, melhor, mais estranha e selvagem fruta nativa que este continente produziu. Crescendo nativa, aqui em Ohio. E ninguém sabe disso!”

Eles sabem. A menina e o pai. Ela nunca vai contar pra ninguém onde fica esse bosque. Vai ser só deles, a cada vez que o outono da banana-da-pradaria chegar.

Observando o homem, Patty, com suas dificuldades para ouvir e para falar, aprende que a verdadeira felicidade consiste em perceber que a sabedoria humana é menos importante do que o balançar das faias ao vento. Tão previsível quanto uma tempestade que vem do oeste, as coisas que as pessoas sabem com certeza mudarão. Não existe saber sem sombra de dúvida. As únicas coisas confiáveis são a humildade e a observação.

Nada é menos isolado e mais social do que uma árvore

Ele a encontra no pátio dos fundos fazendo pássaros a partir das asas geminadas das sâmaras do ácer. Um olhar estranho surge no rosto dele. Ele segura uma das sementes e aponta para o gigante que a lançou ao solo. “Você já percebeu que ele solta mais sementes nas correntes de ar ascendentes do que quando o vento está soprando pra baixo? Por que isso?”

Essas perguntas são a coisa de que ela mais gosta no mundo. Ela pensa. “Porque vão mais longe?”

Ele coloca o dedo no nariz dela. “Bingo!” Ele olha para a árvore e franze a testa, trabalhando novamente em enigmas antigos. “De onde você acha que vem toda essa madeira, pra essa coisinha aqui virar aquilo?”

Chute total. “Da terra?”

“Como se faz pra descobrir?”

Montam o experimento juntos. Colocam noventa quilos de terra em uma banheira de madeira junto à face sul do celeiro. Então extraem uma noz de faia da cúpula da árvore, pesam-na e empurram-na para baixo da argila.

“Se você vir um tronco cheio de letras talhadas, é uma faia. As pessoas não resistem, precisam escrever na superfície cinza lisinha. Deus as perdoe. Querem ver os corações e as iniciais crescendo, ano após ano. Alguém apaixonado, cruel como sua chama, escreve nessa árvore o nome de quem ama. Uma pena, mal percebe que a beleza que vê à de sua amada excede!”

Ele conta a ela que a palavra beech, faia, tornou-se a palavra book, livro, passando de um idioma a outro. E que livro saiu das raízes da faia, lá atrás na língua original. Conta que na casca de faia foram escritas as primeiras letras sânscritas. Patty imagina as pequenas sementes crescendo para então serem cobertas de palavras. Mas de onde vem a massa de um livro grande assim?

“Vamos manter a banheira úmida e sem ervas daninhas pelos próximos seis anos. Quando você fizer dezesseis, vamos pesar de novo a árvore e a terra.”

Ela o ouve e entende. Isso é ciência, e vale um milhão de vezes mais do que qualquer coisa que qualquer pessoa possa jurar para você.

Isso é ciência, e vale um milhão de vezes mais do que qualquer coisa que qualquer pessoa possa jurar para você

Com o tempo, ela fica quase tão boa quanto o pai em dizer o que está roendo ou fazendo murchar as colheitas de uma fazenda. Ele para de lhe fazer perguntas e começa a consultá-la, não na frente dos agricultores, claro, mas depois, no carro, quando podem se dar ao luxo de pensar em equipe sobre as infestações.

Ele oferece a ela, como presente de aniversário de catorze anos, uma tradução censurada de Metamorfoses, de Ovídio. A dedicatória diz: Para minha querida filha, que sabe de verdade o quanto a árvore genealógica é grande e larga. Patricia abre o livro e lê a primeira frase:

Deixe-me cantar para você agora sobre como as pessoas se transformam em outras coisas.

Com essas palavras, ela é levada de volta para um mundo onde nozes estão a um passo de ser rostos, e pinhas formam o corpo de anjos. Ela lê o livro. As histórias são estranhas e fluidas, tão antigas quanto a humanidade. De algum jeito, soam familiares, como se Patty as conhecesse desde que nasceu. As fábulas falam menos sobre pessoas se transformando em outros seres do que sobre outros seres que, em momentos de grande perigo, reabsorvem o que há de mais selvagem dentro das pessoas, algo que nunca realmente desapareceu. Agora, o corpo de Patricia está em plena metamorfose torturante, uma transformação pela qual ela não desejava passar. O alargamento dos quadris e dos peitos, o arbusto crescendo entre as pernas. Ela também está se transformando em uma fera primordial.

Sem dúvida prefere as histórias em que as pessoas se transformam em árvores. Dafne transformada em loureiro antes que Apolo a capture e a machuque. As assassinas de Orfeu, presas pela terra, olhando os dedos dos pés se transformarem em raízes e as pernas em troncos. Ela lê sobre o menino Ciparisso, a quem Apolo transforma em um cipreste para que ele possa chorar para sempre por seu cervo morto. A menina fica vermelha como uma beterraba, uma cereja ou uma maçã ao ler a história de Esmirna, transformada em uma murta depois de se deitar na cama do pai. E ela chora por aquele casal devotado, Baucis e Filémon, passando juntos os séculos como um carvalho e uma tília, sua recompensa por terem recebido estranhos que, no fim, se revelaram deuses.

Chega o décimo quinto outono dela. Os dias ficam mais curtos. A noite cai cedo, sinalizando às árvores que abandonem seu projeto de fabricação de açúcar, se livrem de todas as partes vulneráveis, e endureçam. A seiva cai. As células se tornam permeáveis. A água flui dos troncos e se concentra como líquido anticongelante. A vida adormecida logo abaixo da casca é revestida de uma água tão pura que não resta nada para ajudá-la a cristalizar.

Deixe-me cantar para você agora sobre como as pessoas se transformam em outras coisas

O pai explica o truque. “Pensa! Elas descobriram como viver presas num lugar, com nenhuma outra proteção, açoitadas por ventos de trinta e cinco graus abaixo de zero.”

Mais tarde naquele inverno, Bill Westerford está voltando para casa de noite depois de uma viagem a trabalho quando o seu Packard passa por cima de uma camada de gelo negro. O carro desliza na direção de uma vala enquanto Bill é arremessado para fora. Seu corpo voa por sete metros antes de acertar uma fila de laranjeiras-de-osage que os agricultores plantaram como uma barreira um século e meio atrás.

No funeral, Patty lê Ovídio. A conversão de Baucis e Filémon em árvores. Seus irmãos acham que ela enlouqueceu de tristeza.

Não deixa a mãe jogar nada fora. Coloca a bengala dele e o chapéu porkpie em uma espécie de santuário. Guarda sua preciosa biblioteca: Aldo Leopold, John Muir, textos de botânica, os panfletos educativos de extensão rural que ele ajudou a escrever. Ela encontra nas coisas dele um exemplar não censurado de Ovídio, todo cheio de marcas, como as pessoas marcam as faias. Os sublinhados começam, triplos, já na primeira linha: Deixe-me cantar para você agora sobre como as pessoas se transformam em outras coisas.

Produto

  • A Trama das Árvores
  • Richard Powers (trad. Carol Bensimon)
  • Todavia
  • 648 páginas

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