COLUNA

Pedro Abramovay

O que a disputa em torno de Michelle Bolsonaro revela sobre o eleitorado brasileiro

A esposa de Bolsonaro compreende que o voto feminino está em disputa e que sua conquista exige reconhecimento, representação e participação política

08 de Julho de 2026

O cientista político Jairo Nicolau publicou recentemente um livro fundamental para compreender as transformações do eleitorado brasileiro. Em “O Brasil Dividido” (Zahar, 2026), o autor examina a evolução das preferências eleitorais ao longo dos 20 anos que separam a primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, de sua vitória mais recente sobre o então presidente Jair Bolsonaro, em 2022.

Os achados de Nicolau são particularmente interessantes porque desafiam diversas intuições consolidadas sobre o comportamento eleitoral no país. Muitas das explicações correntes sobre os vínculos entre determinados grupos sociais e os campos da esquerda ou da direita não se confirmam de maneira tão simples quando observadas à luz dos dados. Em outros casos, revelam-se muito mais complexas do que costumam sugerir as análises políticas mais superficiais.

A literatura sobre comportamento eleitoral no Brasil já consolidou a ideia de que, a partir da reeleição de Lula em 2006, o PT passou a concentrar os votos das camadas de menor renda e escolaridade, enquanto a direita passou a obter melhores resultados entre os segmentos de renda mais alta e maior escolarização. Nicolau confirma essa tendência, mas demonstra que ela não é suficiente para explicar a dinâmica eleitoral contemporânea.

Sem negar a relevância das variáveis de renda e escolaridade, o autor mostra que raça e gênero ganharam peso crescente na divisão do eleitorado, especialmente a partir de 2018.
A leitura do livro é particularmente enriquecedora em um momento no qual o debate sobre o voto feminino saiu dos círculos acadêmicos e se tornou um tema central da disputa política, especialmente dentro da própria direita.

O já famoso vídeo de Michelle Bolsonaro, no qual ela expõe a postura misógina de seu enteado e pré-candidato à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro, foi seguido pela resposta agressiva de Paulo Figueiredo — neto do ex-presidente João Figueiredo e influente voz do bolsonarismo. Em sua manifestação, Figueiredo afirmou que as mulheres, principalmente as que não têm marido, “votam mal”. Em outras palavras, que não votam no grupo político ao qual ele pertence.

A disputa que se revela no interior do bolsonarismo está diretamente relacionada ao fenômeno que o livro de Nicolau ajuda a compreender. A configuração eleitoral observada nas últimas eleições é permanente ou está em aberto? O voto feminino está definitivamente alinhado ao campo progressista ou pode ser disputado?

Setores cada vez mais influentes nas redes bolsonaristas cultivam uma visão profundamente misógina, incompatível com a ideia de mulheres autônomas e influentes politicamente

Não há dúvida de que as mulheres votaram majoritariamente em Lula em 2022, assim como os homens tenderam a apoiar Bolsonaro em proporção maior. A questão relevante, porém, é outra: essa divisão é permanente? Para Paulo Figueiredo, aparentemente sim. Para Michelle Bolsonaro, claramente não.

O episódio não deve ser interpretado como uma simples disputa familiar. Ao acusar Michelle de ser “de esquerda” por defender pautas associadas ao feminismo, Figueiredo expõe seu desconforto diante de um movimento maior. Michelle Bolsonaro, a senadora Damares Alves e outras lideranças conservadoras vêm realizando um esforço consistente para ampliar a presença feminina nos espaços de poder e construir redes de mobilização política voltadas às mulheres de direita.

À frente do PL Mulher, a ex-primeira-dama tem desenvolvido um trabalho eficiente de recrutamento e formação política junto a igrejas, administrações municipais e organizações femininas. Sua atuação não se limita às pautas morais tradicionais: ela procura associar a valorização do papel das mulheres na família a uma defesa de sua maior participação na vida pública.

Figueiredo — e, nesse aspecto, uma parcela importante do bolsonarismo — reage a essa estratégia por duas razões. A primeira é a crença de que o voto feminino estaria definitivamente perdido para a direita. A segunda é mais profunda: setores cada vez mais influentes nas redes bolsonaristas cultivam uma visão profundamente misógina, incompatível com a ideia de mulheres autônomas e influentes politicamente.

Nesse ponto, os dados apresentados por Jairo Nicolau parecem dar razão a Michelle Bolsonaro. O voto feminino não é estático — como, aliás, nenhum grupo demográfico é. O autor mostra que, nas primeiras eleições de Lula, os homens eram proporcionalmente mais petistas do que as mulheres. É apenas a partir de 2018 que o eleitorado feminino passa a se tornar uma das principais bases do apoio ao PT.

A experiência internacional reforça essa percepção. Em alguns países, como os Estados Unidos, as mulheres vêm votando de forma mais progressista que os homens. Em outros contextos, no entanto, o comportamento eleitoral feminino apresenta características distintas. Isso demonstra que não existe uma tendência universal ou irreversível. O voto feminino responde a circunstâncias históricas, identidades sociais e disputas políticas concretas.

O que parece afastar da extrema direita uma parte expressiva das mulheres não é apenas a defesa de agendas contrárias a determinados direitos, mas também o tom frequentemente hostil e desrespeitoso adotado por figuras como Bolsonaro e Donald Trump. Esse discurso alimenta e é alimentado por ecossistemas digitais marcados pela misoginia. Nesse sentido, vale a pena assistir ao documentário “Por Dentro da Machosfera”, de Louis Theroux, que retrata a influência crescente de produtores de conteúdo dedicados à disseminação do ressentimento e do ódio contra mulheres, especialmente entre homens jovens.

Michelle Bolsonaro opera justamente dentro dessa contradição. Ela compreende que o voto feminino está em disputa e que sua conquista exige reconhecimento, representação e participação política. Mas enfrenta uma barreira relevante: parte importante de seu próprio campo político rejeita a ideia de ampliar a autonomia e o protagonismo das mulheres.

O campo progressista, por sua vez, também possui suas limitações. Há setores que consideram desnecessária a disputa específica pelo voto feminino, seja porque enxergam a classe social como única variável relevante para explicar o comportamento eleitoral, seja porque tratam o apoio das mulheres ao campo progressista como algo garantido. Em ambos os casos, subestimam a importância de políticas de cuidado, do enfrentamento à violência de gênero e da ampliação da presença feminina nos espaços de poder.

O componente racial possui peso próprio e é indispensável para compreender a política brasileira contemporânea

Fenômeno semelhante ocorre quando observamos os recortes raciais e etários. Nicolau demonstra que eleitores pretos e pardos tendem a apoiar mais fortemente o campo petista mesmo quando o fator renda é controlado estatisticamente. Isso enfraquece a ideia de que o comportamento eleitoral da população negra pode ser explicado apenas por sua posição socioeconômica. O componente racial possui peso próprio e é indispensável para compreender a política brasileira contemporânea.

Outro dado importante do livro diz respeito aos jovens. Diferentemente do que ocorre em diversos países, os jovens brasileiros não são necessariamente mais progressistas do que a população em geral. Entretanto, a diferença entre homens e mulheres é particularmente acentuada nessa faixa etária: homens jovens tendem a ser mais conservadores do que homens de outras idades, enquanto mulheres jovens tendem a ser mais progressistas do que as mulheres mais velhas.

Os cruzamentos entre gênero, raça, religião e idade realizados por Nicolau oferecem pistas valiosas sobre as grandes disputas eleitorais que definirão os próximos anos.

O autor mostra que um dos grupos mais importantes para a sustentação do eleitorado petista é o das mulheres negras, especialmente das mulheres pretas. Em 2022, cerca de 80% das mulheres pretas com Ensino Fundamental e 71% das mulheres pretas com Ensino Médio votaram em Lula. Preservar esse apoio é fundamental para qualquer estratégia eleitoral bem-sucedida do campo petista.

Outro aspecto relevante é a trajetória do voto evangélico. Segundo o livro, os evangélicos apoiaram majoritariamente os candidatos petistas até 2010. Apenas a partir de 2018 passaram a constituir uma das principais bases eleitorais do bolsonarismo. Mais uma vez, os dados mostram que nenhum grupo social possui alinhamentos eleitorais definitivos.

Talvez a grande contradição revelada por esses dados seja justamente a intersecção entre mulheres negras e evangélicos. O grupo que mais sustenta o voto petista é composto por mulheres negras, mas as mulheres negras também representam parcela significativa da população evangélica brasileira. É nesse cruzamento que parece residir uma das principais disputas políticas do país.

São as mulheres negras, talvez mais do que qualquer outro grupo, que ocupam o centro da disputa política brasileira

Enquanto setores progressistas desistiram de disputar o voto evangélico e setores bolsonaristas desistiram de disputar o voto feminino — especialmente o das mulheres sem companheiro — milhões de mulheres negras, evangélicas ou não, seguem enfrentando diariamente os desafios de sustentar suas famílias, criar seus filhos e construir uma vida digna. São elas, talvez mais do que qualquer outro grupo, que ocupam o centro da disputa política brasileira.

O campo progressista pode assistir com satisfação às tensões internas do bolsonarismo — tensões que, sem dúvida, favorecem Lula no curto prazo. Mas, se não compreender que essa disputa revela transformações profundas na composição do eleitorado brasileiro, corre o risco de ser surpreendido, mais uma vez, por mudanças que já estarão acontecendo diante de seus olhos.

Pedro Abramovay é advogado, doutor em Ciência Política pelo Iespe/Uerj, ex-secretário Nacional de Justiça e atualmente vice-presidente de Programas da Open Society Foundations

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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