COLUNA

Observatório da Branquitude

No futebol, preto joga e branco manda

O futebol brasileiro parece confiar em homens negros para a dimensão física do jogo, mas não para a leitura estratégica e tática dele

18 de Setembro de 2026

Venho acompanhando com especial atenção o sucesso do técnico negro Marcão no comando do Fluminense. Confesso ao leitor, antes de qualquer coisa, que sou flamenguista, muito rubro-negro, e espero que isso não custe julgamentos antecipados de sua parte já que escreverei sobre o treinador de um de nossos principais rivais. Mas há casos que atravessam a rivalidade e me obrigam a sair do campo emocional do futebol para pensar no que eles revelam sobre o país. A trajetória do Marcão é um deles.

Ele foi ídolo do Fluminense como exímio volante, voltou ao clube como auxiliar, e nos últimos anos assumiu o comando do time interinamente diversas vezes. Sempre que a crise batia à porta e não tinha ninguém para segurar a bronca: “Vamo de Marcão”. No futebol chamamos de bombeiro, uma espécie de especialista em apagar incêndios metafóricos. Entretanto, essa especialidade me parece esconder outra coisa: a falta de oportunidades longevas para treinadores negros no Brasil.

Se é bem verdade que, de maneira geral, treinadores de futebol vivem no fio da navalha entre o céu e o inferno, e que o Brasil é recordista em demissão de técnicos, também é notório que, na dança das cadeiras da elite do futebol nacional, os treinadores negros seguem sistematicamente excluídos das oportunidades efetivas.

Na dança das cadeiras da elite do futebol nacional, os treinadores negros seguem sistematicamente alijados das oportunidades

Em novembro passado, numa entrevista sobre a data da consciência negra, o próprio Marcão chamou esse padrão pelo nome certo, disse que o problema é estrutural. E tem razão, porque o futebol brasileiro parece tradicionalmente confiar em homens negros para a dimensão física do jogo, mas não para a leitura estratégica e tática dele.

A teórica portuguesa Grada Kilomba descreve como o pensamento ocidental separou o corpo da razão, reservando à branquitude o lugar da mente e da autoridade que organiza o mundo. Empurrou, assim, para o corpo negro tudo aquilo que a civilização branca prefere não reconhecer como seu. O futebol brasileiro reproduz essa partilha com uma fidelidade quase didática. Em campo, o corpo negro é celebrado, quase endeusado. No comando, na cabeça que lê o jogo e decide a estratégia, a branquitude reserva o cargo para si, como se pensar fosse atributo de poucos e correr atrás da bola destino de todos os outros.

Desde 2016, apenas 10,7% dos 159 técnicos do Campeonato Brasileiro eram pretos ou pardos, contra uma média de quase 58% entre os jogadores em campo. A CBF, aliás, sequer produz dados oficiais de raça sobre seus profissionais, o que já diz muito sobre quem tem interesse em contar e quem prefere que ninguém conte. Hoje, além de Marcão, apenas Jair Ventura, do Vitória, também é negro.

O pensamento ocidental separou o corpo da razão, reservando à branquitude o lugar da mente e da autoridade que organiza o mundo

Um estudo inglês de 2020, conduzido pela RunRepeat a partir de centenas de horas de transmissão, mostrou a mesma fronteira em outro terreno, o da linguagem. Jogadores de pele mais escura são descritos com elogios ao corpo e à força física. Jogadores de pele mais clara recebem elogios à cabeça e à leitura de jogo. É a mesma partilha de Kilomba, só que dessa vez cronometrada e contada, palavra por palavra, pela boca de quem narra a partida.

Volto ao meu time do coração para medir o quanto essa fronteira dói de perto. Jayme de Almeida, ídolo rubro-negro, foi campeão da Copa do Brasil em 2013 como técnico interino do Flamengo. Depois disso não recebeu nenhuma proposta relevante, salvo uma sondagem do Vitória. Perguntado sobre o motivo, hesitou antes de responder. Disse que não sabia se era por ser negro, mas emendou que o Brasil é um país bem racista. Andrade, ídolo histórico do Flamengo, foi eleito pela CBF o melhor técnico do Campeonato Brasileiro de 2009, ano em que também levantou o título. Teve destino parecido no deserto de novas oportunidades.

Da próxima vez que um técnico negro for chamado às pressas para segurar um time em crise, vale prestar atenção no que acontece depois que a crise passa. Se ele for dispensado assim que o resultado melhora, ou mantido no cargo só enquanto ninguém melhor aparece no horizonte, pode desconfiar que o assunto de fundo deixou de ser futebol há muito tempo, e virou a pergunta mais antiga do país: quem tem permissão para pensar (o jogo)?

Que Marcão tenha sucesso, salvo quando diante do meu Mengão, claro.

Thales Vieira é antropólogo (UFF) e cientista social (PUC-Rio). Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-Rio, é fundador e co-diretor do Observatório da Branquitude. Atuou no poder público, em organismos internacionais como o BID, ONU-Habitat e em fundações como o Instituto Unibanco e o Instituto Ibirapitanga. É especialista nos estudos críticos de branquitude e em relações raciais.

Observatório da Branquitude é uma organização da sociedade civil fundada em 2022 e dedicada a produzir e disseminar conhecimento e incidência estratégica com foco na branquitude, em suas estruturas de poder materiais e simbólicas, alicerces em que as desigualdades raciais se apoiam.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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