COLUNA

Observatório da Branquitude

Coisa de rico & coisa de pele

A branquitude outorga privilégios concretos em todos os compartimentos da sociedade, inclusive na sarjeta

02 de Outubro de 2025

O ótimo Michel Alcoforado mapeou com precisão os códigos de distinção da elite brasileira no livro fenômeno do momento, “Coisa de Rico: A vida dos endinheirados brasileiros” (Todavia, 2025). Descobriu, entre muitas outras coisas, que ninguém se considera verdadeiramente rico porque sempre há alguém mais rico. O antropólogo que aqui vos escreve recebeu com entusiasmo a obra, embora tenha ficado com uma pulga atrás da orelha. Me parece que há um código anterior e mais fundamental que estrutura todas essas distinções. Ela, a branquitude, e seu capital racial inalienável.

Para fazer essa conversa aqui com vocês vou recorrer a um exemplo na ponta oposta ao que Michel trabalhou no seu livro e relembrá-los de uma história que completa 13 anos em outubro de 2025: a do “Mendigato” de Curitiba.

Rafael Nunes da Silva, o “Mendigato”, não possuía nenhum dos marcadores tradicionais de distinção social que Alcoforado descreve. Sem patrimônio, sem grife, sem códigos de classe. Só que Silva possuía algo que vale tanto quanto — ou às vezes até mais que — qualquer capital financeiro no mercado brasileiro da compaixão: olhos azuis, fenótipo europeu, branquitude. Quando sua fotografia viralizou em 2012, ele não apenas ganhou atenção midiática, foi humanizado e transformado em um projeto de redenção, como se aquele não fosse o seu lugar. Os “estonteantes olhos azuis” descritos até por tabloides britânicos operaram como certificado de humanidade, passaporte automático para a empatia coletiva.

A branquitude funcionou como moeda de troca mesmo na absoluta ausência de capital econômico

O que o caso explicita é a existência de uma economia da compaixão na qual raça é um ativo muito valioso. Enquanto milhares de pessoas negras em situação de rua permanecem invisibilizadas, criminalizadas, despidas de subjetividade, Rafael mobilizou clínicas de reabilitação, mídia nacional e internacional, casamento e oportunidades de trabalho. A branquitude funcionou como moeda de troca mesmo na absoluta ausência de capital econômico. Não se trata de um caso isolado ou de sorte, mas de um sistema que distribui recursos materiais e simbólicos de forma racialmente estratificada.

Como antropólogo, me interesso por como a branquitude opera aqui não como mera ausência de discriminação, mas como presença ativa de privilégios concretos. A diferença não está apenas no que Rafael não sofreu (por exemplo, a associação automática com a abjeção e a falta de dignidade), mas no que ele ativamente recebeu: tratamento, oportunidades, segunda chances, narrativa de redenção. A branquitude conferiu-lhe aquilo que Alcoforado identifica nas elites: códigos reconhecíveis que garantem pertencimento, ainda que no estrato mais baixo da hierarquia social.

O contraste com a população negra em condições semelhantes é brutal e instrutivo. Enquanto Rafael era descrito como alguém “em situação de rua”, com toda a transitoriedade que o termo sugere, pessoas negras que enfrentam a mesma realidade são frequentemente categorizadas como “elementos”, “marginais”, “cracudos” — termos que denotam irreversibilidade, periculosidade, descartabilidade. A diferença não está na substância química que consomem (crack é crack, independentemente da melanina), mas em sua interpretação social. Rafael era um dependente químico que precisava de ajuda; seus pares negros são “nóias” que ameaçam a ordem pública.

Alcoforado demonstra que os códigos de distinção entre ricos são atuados por meio de escolhas estéticas, consumos específicos, domínio de certos repertórios culturais. Mas a branquitude opera em um registro diferente: embora tenha sido socialmente construída, segue sendo percebida como dado natural. Rafael não precisou demonstrar sua humanidade, ela foi reconhecida automaticamente pelo seu fenótipo. Esta é a radicalidade da branquitude enquanto estrutura: ela funciona aprioristicamente como uma condição de possibilidade para o reconhecimento social, sem necessitar de qualquer parafernalha ou do conhecimento de regras de etiqueta.

O fenômeno Mendigato mobiliza múltiplas dimensões do racismo estrutural simultaneamente. O imaginário que romantiza a “beleza dos olhos azuis”, as preferências estéticas que definem quem é fotogênico mesmo na miséria, os preconceitos que determinam quem merece compaixão, as práticas que distribuem recursos de forma racialmente estratificada. Rafael não é uma exceção ao racismo estrutural brasileiro, ele é sua expressão mais didática. Sua história demonstra que a branquitude outorga privilégios concretos em todos os compartimentos da sociedade, inclusive na sarjeta.

O branco que perde tudo ainda terá seu patrimônio epidérmico

Treze anos depois, Rafael está novamente nas ruas do Rio de Janeiro, tendo passado por recaídas, desaparecimentos e pela dissolução de um casamento. O fenômeno viral se esgotou, as câmeras se foram, a atenção migrou. Mas mesmo na recaída, mesmo invisibilizado novamente, Rafael ainda carrega privilégios que seus pares negros jamais tiveram: ele foi notícia quando desapareceu, foi procurado, foi encontrado. A branquitude continuava operando como capital mesmo quando todo o resto se esgotou.

Penso que o caso do Mendigato funciona como experimento sobre como o racismo estrutural opera no país. É preciso dizer: dependência química é coisa séria, drama humano que é, antes de tudo, social. O ponto aqui é outro: mesmo na tragédia da dependência, a branquitude outorga privilégios concretos que transcendem a classe. Rafael provou que no mercado brasileiro da empatia, o fenótipo pode valer mais que patrimônio financeiro. O fenômeno Mendigato não é sobre um indivíduo excepcional, mas sobre uma estrutura que determina sistematicamente quais vidas merecem atenção, cuidado, recursos e identificação. É sobre a branquitude como ação mais segura da economia: aquela que garante, no mínimo, ser reconhecido. Essa é a verdadeira coisa de rico no Brasil: o privilégio de ser reconhecido como gente, mesmo no andar mais baixo da pirâmide. Aqui, o branco que perde tudo ainda terá seu patrimônio epidérmico.

Thales Vieira é antropólogo (UFF) e cientista social (PUC-Rio). Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-Rio, é fundador e co-diretor do Observatório da Branquitude. Atuou no poder público, em organismos internacionais como o BID, ONU-Habitat e em fundações como o Instituto Unibanco e o Instituto Ibirapitanga. É especialista nos estudos críticos de branquitude e em relações raciais.

Observatório da Branquitude é uma organização da sociedade civil fundada em 2022 e dedicada a produzir e disseminar conhecimento e incidência estratégica com foco na branquitude, em suas estruturas de poder materiais e simbólicas, alicerces em que as desigualdades raciais se apoiam.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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