COLUNA

Marilene Felinto

Quando a Justiça vai de saias ao sertão

Após 30 anos, voltei ao Cariri paraibano numa expedição de observação e pesquisa. Desta vez, as protagonistas são as mulheres

25 de Setembro de 2026

O sertão mudou. Ariano está morto. E Raduan, insondável em sua ausência, seu embaçamento mental de nonagenário. E se nomeio ambos aqui com a intimidade do primeiro nome é porque foi com eles que, 27 anos atrás, estive no mesmo sertão do Cariri paraibano, região que ocupa o centro-sul e sudeste do estado da Paraíba, por onde andei recentemente. Ariano é o Suassuna (1927-2014); Raduan, o Nassar (91 anos), dois monstros da literatura, da cultura, e de certa agricultura de interesse tão nacional — Raduan, da lavoura mesmo, de arroz, feijão e trigo; Ariano, da criação de cabras de raça em Taperoá, no sertão da Paraíba, para onde nos levou — a Raduan e a mim —, em 1999, a conhecer as terras de sua família.

Os dois escritores conheceram-se em Recife, naquele mesmo ano, num encontro idealizado por mim, resultado de um dos bizarros e raros insights que tive como a repórter-jornalista que nunca fui de fato. Adoraram-se, um ao outro, às gargalhadas.

Mas os dois identificavam-se mesmo era com tudo o que havia de arcaico em ambos: o interior, o país adentro. Em Ariano, arcaico era o sertão da pedra e do reino sebastianista do pai desaparecido precocemente, motivo de busca sem fim na obra do autor de “O Auto da Compadecida”; em Raduan, arcaica era a aldeia longínqua, no Líbano, de onde emigrara o pai (o patriarca-autoridade, assim retratado em seu “Lavoura Arcaica”) até chegar à “terra boa para plantar”, significado do topônimo da cidade natal do escritor, Pindorama, no noroeste paulista.

Agora voltei sozinha ao Cariri paraibano, na idade das mortes e da solidão — a minha idade. O sertão estava, portanto, mais silencioso — sem a voz do aristocrata rural que se entregou de corpo e alma às raízes da cultura popular (Ariano); sem a voz do latifundiário paulista (Raduan) que abdicou de suas terras em prol da educação e da reforma agrária, ele que doou todas elas à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e ao MST, em 2010.

Agora voltei sozinha ao Cariri paraibano, na idade das mortes e da solidão — a minha idade

Faltaram esses dois homens-vultos, dos quais não sei por que me aproximei naqueles tempos, eles que tinham a idade do meu pai, eles que não leram um único livro meu (tenho certeza, embora nunca tenha perguntado), mas que, de um modo ou de outro, reconheciam a importância de uma voz pública qualquer minha (a de jornalista), conforme Ariano comentou comigo em 1991, nos bastidores de uma entrevista que fizemos com ele, o então editor do caderno “Letras” da Folha de S.Paulo e eu.

Suassuna me disse, naquela ocasião, em seu arcaico casarão do bairro da Casa Forte, em Recife: “Queria dizer como é importante que você escreva, que tenha voz, principalmente por você ser uma mulher negra”. Nenhum outro intelectual branco, e da oligarquia nordestina, teria feito naquela época uma observação como essa, senão um apaixonado e atento observador do “Brasil profundo” como Ariano. Aquele comentário fez crescer meu respeito por ele, e me remeteu à lembrança da canção-protesto de John Lennon sobre como as mulheres são “o negro” do mundo, as escravizadas dos escravizados (“Woman is The Nigger of the World”, 1972), hit da minha adolescência, que eu cantava como quem gritava.

Sertão e superação

Voltei ao Cariri paraibano entre 22 e 27 de agosto deste 2026, quase 30 anos depois, numa expedição de observação e pesquisa. Desta vez, os atores não eram homens, um sinal dos tempos: do machismo dominador do velho patriarcado branco para uma iniciativa de incentivo à equidade de gênero no Judiciário. Desta vez, as protagonistas eram mulheres, todas elas profissionais do Sistema de Justiça — advogadas, defensoras públicas, juízas, procuradoras e promotoras —, a maioria de meia-idade, entre os 40 e 50 anos.

As agentes da Justiça foram selecionadas para o programa “Caminhos para a Liderança de Mulheres na Justiça”, criado por três organizações do Terceiro Setor (Fórum Justiça, JUSTA e Themis-Gênero, Justiça e Direitos Humanos), visando o aprimoramento da formação delas, de modo a instrumentá-las melhor na disputa pelos cargos vitalícios do Sistema de Justiça. Segundo a advogada Luciana Zaffalon, diretora do JUSTA, “os próximos dez anos abrem uma oportunidade imperdível para a troca geracional e a renovação da liderança na Justiça, quando 70% dos cargos de poder vitalícios ficarão vagos com a aposentadoria compulsória de seus atuais ocupantes”.

O objetivo do programa é criar bases de mobilização e promover articulações para enfrentar e superar o sexismo no Judiciário, favorecendo a ocupação por mulheres dos cargos mais altos dos Tribunais de Justiça, Ministérios Públicos, Procuradorias, Defensorias, entre outros órgãos, domínio absoluto e infernal, ainda hoje, de homens brancos. Um total de 1.345 cargos vitalícios poderão ser ocupados por mulheres na próxima década.

O “Caminhos para a Liderança de Mulheres na Justiça” terá duração de cinco anos. “A cada ano, um grupo de 50 mulheres aproximadamente passará por um período de formação de dez meses”, como explica Denise Dora, advogada e cofundadora da Themis, “de modo que, ao final do período, 250 mulheres tenham participado dessa iniciativa que pode de fato apoiá-las a circular no ambiente da Justiça com mais autonomia, autoconfiança e estratégia”.

Para esta primeira edição, de 2026, 34 profissionais, selecionadas nas cinco regiões do país — sendo 40% delas autodeclaradas pardas e negras — compõem a primeira turma do percurso de aprendizagem (agosto de 2026 a maio de 2027), que inclui intercâmbios, mentorias, grupos de trabalho e conexões diversas.

A expedição ao Cariri é uma dessas atividades do primeiro grupo, este que acompanhei na viagem, em que estavam 12 participantes e quatro coordenadoras do Programa. Todas as 34 selecionadas realizariam o mesmo trajeto, entre agosto e setembro, convidadas a interagir com lideranças de mulheres do interior do país reunidas em coletivos e cooperativas, e a conhecer os caminhos percorridos por elas para vencer as condições adversas do semiárido, da fome à falta de perspectivas de trabalho, da desqualificação de suas atividades de subsistência à opressão machista e à violência de gênero.

O objetivo da expedição era mesmo reunir mulheres de diferentes instâncias da Justiça numa convivência incomum, como comenta Mônica de Melo, defensora pública e coordenadora do Fórum Justiça. “Despidas de suas togas e vestes forenses, imersas na caatinga, partiram rumo ao encontro de outras mulheres que lá vivem e, à sua maneira, forjam espaços em que são reconhecidas em suas especificidades, alcançando reconhecimento e autonomia. A ideia era esta, percorrer pontes para a construção de um projeto que passa pelas individualidades e, ao ser compartilhado, se torna de todas elas”.

Meu papel na excursão, a que fui convidada como escritora e alheia ao mundo jurídico, foi o de ilustrar, via minha literatura, representações fictícias de mulheres que construíram liderança própria vida afora, como guerreiras (as heroínas de tejucopapo, da história das quais deriva o título do meu romance de ficção “As Mulheres de Tijucopapo”, por exemplo) ou quase justiceiras (em “Corsária”, outro livro de minha autoria); foi o de observar as afetações que aquele universo do interior do Nordeste produziria nas operadoras do Direito e da lei, de modo que pudéssemos, ao final, trocar impressões e modos de expressão a partir de contextos literários e da vivência real experimentada por elas no território do sertão.

Dali daqueles interiores, aquelas mulheres da Justiça teriam como destino a assombrosa Organização das Nações Unidas (a ONU), em Nova York, para assistir a conferências e atuar em grupos de trabalho, mais um intercâmbio improvável, não fosse o apoio do programa que proporciona às profissionais essa busca estratégica por expertise, traquejo internacional e autoconhecimento.

No semiárido interiorano, onde tudo parece que dói sob o sol tinindo, eis que as magistradas, as promotoras, as defensoras, mulheres que deixaram momentaneamente seus tribunais, fóruns, gabinetes e escritórios, suas varas e comarcas, viram-se atiradas de repente na atmosfera impiedosa do território da secura, da escassez de água e sombra. Olhei para elas um tanto à distância, como se fossem seres diferentes de mim: ora, como sentirão na pele as mulheres da Justiça as leis que regulam aquele clima inexorável? Como perceberiam o “aspecto atormentado” daquelas paisagens, como disse Euclides da Cunha nas “Primeiras impressões” de seu “Os Sertões”? Como reparariam naquela “flora tolhiça (…) flora decídua embaralhada em esgalhos”, que “é de algum modo o martírio da terra”?

Kelly era real, verdadeira realização da utopia, uma raridade na Magistratura brasileira

Comecei a expedição com essas descrições dramáticas de Euclides da Cunha ecoando na minha lembrança de leitura daquele sertão antepassado. Aliás, em outra momentânea obsessão mental, os versos de John Lennon (“Woman is the nigger…”) persistiam em martelar na minha cabeça: “woman is the slave of the slaves/ yes she is/ Oh, yeah, better scream about it/ Think about it/ Do something about it” (a mulher é a escrava dos escravos/sim, é/ah, sim/melhor gritar isso/pensar nisso/fazer algo contra isso).

Dentre as participantes da comitiva, acompanhei mais de perto Kelly (nome fictício) uma juíza negra a quem olhei com admiração e inveja construtiva: “Não sei por que não enveredei por essas carreiras do Judiciário, pois eu, segundo a astróloga, nasci em Sagitário, o signo da Justiça”, disse a mim mesma, ruminando versos de música e esse tipo de elucubração besta. Mas Kelly era real, verdadeira realização da utopia, uma raridade na Magistratura brasileira. Durante toda esta minha longa vida, só me lembro de ter visto uma mulher negra atuando como juíza num tribunal de júri (ou em qualquer outro tribunal) em filme americano. No entanto, Kelly estava ali mesmo na minha frente, caminhando entre pedras, subindo e descendo lajedos difíceis.

No primeiro dia daquela excursão, ainda na nossa chegada em João Pessoa, dados alarmantes da desigualdade de gênero no Sistema de Justiça, especialmente em cargos vitalícios, foram apresentados ao grupo. Uma consulta rápida nas pesquisas “Gênero, Poder e Remuneração nos Ministérios Públicos Brasileiros (2025) e nos Tribunais de Justiça Brasileiros (2026)”, realizadas pela Plataforma Justa, já revela a disparidade histórica:

Quando se trata da assimetria salarial, por sua vez, da desigualdade na remuneração de homens e mulheres dos Ministérios Públicos Estaduais, por exemplo, as mesmas pesquisas apuraram que 80% das Promotoras e Procuradoras de Justiça trabalhavam, em 2024, em Ministérios Públicos que pagavam menos às mulheres do que aos homens.

DIÁRIO DE VIAGEM ÀS AVESSAS

Começo pelo fim este breve diário de um sertão outro, novo, que mudou, mas também não: pois não é que os casebres à beira da estrada — que o micro-ônibus, saído de João Pessoa percorria sertão adentro — ainda espiam assombrados a língua de asfalto por onde passam carros e caminhões velozes, estrada que nos tempos nem tão antigos assim chamava-se apenas “caminho” de terra rasa e pedregosa?

Começo pelo fim esse percurso de cinco dias. Começo pelo município de Taperoá, precedido por outros naquele roteiro cultural pelo Cariri paraibano: Sumé, Serra Branca, Cabaceiras, Boqueirão, São João do Cariri, Ingá, alguns apenas de passagem, outros de parada.

Última parada: Taperoá – 27 de agosto de 2026

Suassuna já não vive no meio do rebanho de cabras que ele criava. A Taperoá de Ariano é um museu dele mesmo e, como toda instituição desse tipo, tem lá seu quê de caricatura. Suas cabras só ressurgem nos bons queijos artesanais produzidos na pequena fábrica da fazenda de seus familiares. De resto, discordei do vaticínio romântico do escritor, ele que dizia que a cabra poderia ser “um caminho para a revitalização política, literária e econômica” do sertão do Nordeste. O sertão não mudou tanto assim. Não.

Sob o sol a pino do meio-dia, no centro de uma praça de Taperoá, comentei com Kelly como perduravam naquele lugar vestígios da presença da fidalguia branca nordestina, da linhagem de senhores de engenho, capitães e coronéis dos quais descendiam os Suassunas, por exemplo, gente branca e alta. Não me lembro de ter mencionado (senão a mim mesma) que eu queria mesmo, isso sim, era poder escutar ali o retinir das espingardas e carabinas do cangaço, em suas lutas por vingança contra a opulência daquela nobreza de raça e de classe, a política e a econômica, que segue até hoje no comando naqueles confins. Kelly surpreendeu-se com o tom declaratório de meus comentários, e aproveitou o ensejo para me perguntar onde estavam os negros e as negras da região, que não tínhamos visto até então. E concordamos que era imprescindível procurá-los, encontrá-los em quilombos ou grutas, onde estivessem, trazê-los para roteiros culturais, para expedições de pesquisa como aquela. Guardei comigo aquela expectativa.

Penúltima parada: município de Monteiro, 26 e 25 de agosto de 2026

Nosso penúltimo destino foi Monteiro, maior cidade do Cariri paraibano, mas eu queria mesmo era ter conhecido Congo, o município, muito perto dali. Certo dia, em Recife, conheci uma mulher que me disse ter nascido em Congo. “Congo?””Sim”, ela confirmou, “na Paraíba”. Pois o nome me espantou enormemente: “Congo? Na Paraíba?”, insisti. Ela reconfirmou, com naturalidade, e me ofereceu a melhor jaca, a melhor castanha-de-caju e a melhor carne de bode que já comi na minha vida, iguarias que ela tinha trazido de Congo, e que só se achavam naquele sertão inigualável. Na ocasião, fui procurar no mapa a localização do município e a origem do nome. Fiz isso de novo nesta expedição das mulheres da Justiça, calculando distâncias: estávamos a poucos 70 quilômetros de Congo! E mais uma vez eu perderia a chance de conhecer aquele lugar que tinha sido povoado graças a uma fuga de escravizados vindos da capitania de Pernambuco. O topônimo, contava-se na história oficial da cidade, vinha do nome de um “preto velho” cujo apelido era “Congo” e que construíra, nos 1800, a primeira residência, bem como a capela do povoado que viria a ser a sede do futuro município. Mas já antes, em fins dos 1700, afirmava-se que a antiga igreja de Senhora Santa Ana do Congo, nas terras de um capitão local, já realizava batismos recorrentes.

Não falei com ninguém sobre Congo. Voltei-me para Monteiro, onde o sertão já tinha entrado na era do “sustentável”, do “ecológico”. Monteiro já exibia, aqui e ali, painéis fotovoltaicos de energia solar, e pequenos parques de energia eólica, as hélices girando nos postes como cata-ventos de brinquedo gigantes — a despeito do que essas inovações energéticas por vezes tivessem desembocado em conflitos locais (contratos abusivos das empresas instaladoras em desfavor dos pequenos proprietários das terras, danos à agricultura, a estradas, cisternas, entre outros).

Mas o sertão estava mudado sim, em parte. Aprimorou-se o produto manual de rendeiras e crocheteiras — sob orientação do estilista mineiro da alta costura Ronaldo Fraga, em projeto social que desenvolve naqueles arredores, as artesãs de Monteiro aprenderam a valorizar o design da natureza local, flora e fauna, introduzindo em suas pinturas, seus bordados, no tecer das redes, nas peças de renda e crochê, a galhada retorcida de facheiros e faveleiros, os contornos de chique-chiques e mandacarus, as cores dos azulões, dos galos-de-campina, os chifres de bodes e cabras.

De invisibilizadas e desqualificadas, tornaram-se protagonistas, donas do mando de suas casas e suas vidas

Diante daquela produção tão mais original e bonita, as representantes da Justiça ouviram atentas e cúmplices, no Centro de Referência da Renda Renascença, em Monteiro, a narrativa das rendeiras e crocheteiras — como também tinham ouvido das artesãs do tear em Boqueirão — contando como a vida melhorou para elas em todos os sentidos depois que aprenderam com iniciativas privadas como a de Fraga a precificar seus produtos, a empreender, a unir forças no cooperativismo e no coletivismo, a lidar com a “economia criativa”, mas também a reivindicar da política pública a fatia que cabia a elas por direito. A vida delas tinha, sim, melhorado e muito não somente no quesito financeiro, mas porque todo aquele aprendizado tinha livrado algumas da depressão, elevado a autoestima de outras e despertado o respeito dos homens, maridos, companheiros, e da comunidade pela atividade que praticavam. De invisibilizadas e desqualificadas, tornaram-se protagonistas, donas do mando de suas casas e suas vidas.

Concentrei-me em Monteiro. Congo ficaria mesmo para trás. Adiante, a expedição chegou ao Assentamento Santa Catarina, antigo projeto do Incra na zona rural de Monteiro, primeiro assentamento da reforma agrária instalado na região, formalizado em 1995, mas ainda não totalmente regularizado no que se refere à posse da terra, como nos informaram algumas assentadas.

Um momento mais simbólico da ocupação do lugar se deu em 2003, quando a musicista tocadora de pífano e poetisa popular Isabel Marques da Silva, a Zabé da Loca (1924–2017), deixou a gruta de pedra (loca) onde viveu por 25 anos para receber sua casa própria e seu lote de terra no local. Zabé da Loca teve reconhecimento tardio como musicista. Em junho de 2004, durante o Fórum Cultural Mundial realizado em São Paulo, Zabé tocou seu pífano ao lado do multi-instrumentista Hermeto Pascoal (1936-2025), com quem dividiu aquela apresentação musical.

Em conversas com as lideranças de mulheres assentadas, reunidas na Associação das Mulheres Produtoras do Assentamento Santa Catarina, a comitiva de agentes da Justiça pôde conhecer histórias de privação, resistência à opressão e superação de todo tipo de adversidade. São as mulheres da Associação que, desde o início, encabeçam a organização produtiva e financeira do lugar, num projeto coletivo que incrementou a agricultura familiar de subsistência introduzindo ali o cultivo de hortaliças, plantas medicinais e frutíferas, garantindo assim o sustento de suas famílias e ainda gerando um excedente para venda. A iniciativa daquelas lideranças também incrementou o artesanato e proporcionou a abertura de pequenas agroindústrias locais para o beneficiamento de alimentos. São ainda elas que mantêm viva a memória e o legado musical de Zabé da Loca, administrando oficinas de pífano e ajudando a atrair para o território o turismo comunitário.

Saímos de Monteiro avistando pela janela do micro-ônibus um dos canais de transposição do Rio São Francisco, uma estrutura de concreto cavada no solo, por onde a água desviada do “Velho Chico” é transportada até regiões secas como aquela. O sertão vinha mudando. Até mesmo alguma segurança hídrica já se vêem alguns pontos.

Terceira e segunda paradas: CABACEIRAS, 23 e 24 de agosto

O sertão está mudado, em parte. Está novo. Está lido e fala um tanto de inglês — é que o guia da expedição, um jovem rapaz local, ao apontar as fachadas bem conservadas e coloridas das casas populares e dos casarões coloniais do século 19 do município de Cabaceiras, onde chegávamos, citou o livro das “Pinturas e Platibandas” (2010) de Anna Mariani (1935-2022), fotógrafa que eternizou em suas imagens fotográficas a arquitetura e o colorido das fachadas das casas do agreste nordestino.

O sertão está mudado, em parte. Está novo. Está lido e fala um tanto de inglês

Cabaceiras é a cidade do cinema naquele território sertanejo que virou takes de filmes e rota cultural. Seu casario tem servido de cenário para diversas produções cinematográficas nacionais, entre longas-metragens, séries de canais de streamings e novelas de TV. Ali foram rodados, por exemplo, o filme “O Auto da Compadecida” (2000), a novela “Cordel Encantado” (2011) e a série “Cangaço Novo” (2021-2022), entre dezenas de outras obras.

A “Rua do Cinema”, nesta Cabaceiras que é apelidada de “Roliúde Nordestina”, é um verdadeiro memorial a céu aberto, em que enormes pôsteres de atores e atrizes que passaram pela cidade trabalhando nas diversas filmagens estão dependurados em muros e portais.

ROTA DO COURO DE BODE

Longe do glamour das telas de cinema, no distrito de Ribeira, zona rural de Cabaceiras, adentramos pela “Rota do Couro”, onde se encontra um curtume sustentável, da Cooperativa Arteza. Ali se processa o curtimento artesanal e vegetal de couro de bode, tradição antiga do lugar. Já era perto de meio-dia quando observávamos o enorme galpão coberto na parte de cima, mas de resto aberto por todos os lados, onde dezenas de peças de couro secavam à sombra, dependuradas do teto. Ainda na parte externa da fábrica, fomos apresentados aos tanques cheios d’água em que os pedaços de couro descansavam na etapa do tingimento com pigmento de casca de angico, árvore nativa da caatinga, num processo natural e indicador da sustentabilidade do processo, segundo nos explicava o profissional curtidor.

Respirei fundo e guardei para mim a sensação sempre devastadora de que perdi o eixo a partir do qual eu me sustentava

Quando entramos no espaço interno das instalações, era o impressionante meio-dia no sertão do Cariri, a hora mais dura de todas, de raios de sol castigando a pele, de mormaço entorpecedor e que, nas dependências do curtume, misturaram-se ao odor forte do couro em tratamento, sendo lavado em gigantescas rodas de madeira. Foi então que tive uma vertigem medonha e momentânea. Logo passou, mas como todas as tonturas, todas as perdas de equilíbrio, por mínimas que sejam, me abalou. Respirei fundo e guardei para mim a sensação sempre devastadora de que perdi o eixo a partir do qual eu me sustentava. Finalmente fomos à loja da cooperativa, onde curtidores e artesãos locais, mestres e jovens expõem à venda uma infinidade de produtos artísticos feitos em couro: sandálias, bolsas, cintos, chapéus, carteiras e quadros de arte.

DA PASSAGEM POR INGÁ: 23 de agosto de 2026

Parece que, no sertão, as pedras mostram sua resistência mais do que em qualquer outro lugar. Elas se apresentam em toda a sua dureza de rochas, lajedos e escarpas lascadas, desnudas de cobertura, expostas, faiscando sob o sol. A Pedra do Ingá, principal painel do sítio arqueológico conhecido como Itacoatiaras do Rio Ingá, que visitamos no município de mesmo nome, foi a atração de entrada da expedição no Cariri da Paraíba. A pedra preserva um conjunto de gravuras rupestres sulcadas em baixo-relevo na rocha, de datação não conclusiva até hoje, ainda que algumas hipóteses calculem sua existência em milhares de anos. Também o significado das inscrições permanece no terreno das interpretações, sem que a arqueologia tenha conseguido comprovar cientificamente a origem das mesmas. O sítio, que repousa à beira do rio Ingá, sofre de um tanto de erosão e exposição à visitação pública sem controle.

Quando os guias da expedição mencionaram ali os “milhares de anos” pré-históricos, avancei um pouco no tempo e me perguntei se contariam também a história dos povos Kariri, indígenas originários que, afinal, viveram em vastas extensões daquele alto sertão do Nordeste. Ou haveria silêncio sobre o tema? Guardei comigo minha expectativa.

Memorial do Cuscuz e da Tapioca

Foi ali no município de Ingá que primeiro notei como o sertão estava meio mudado, que ali havia agora mulheres “empreendedoras”, mulheres que se reinventaram, virando negociantes, comerciantes que transformaram em mercadoria tudo o que sempre souberam fazer no simples cotidiano de subsistência. Conhecemos ali o pequeno negócio de uma daquelas mulheres sertanejas castigadas pela vida — mulher traída, violentada, abandonada à própria sorte, fugida, sozinha carregando filhos e cacarecos estrada afora. Essa era a história de dona Lia do Cuscuz, sertaneja que fora tentar a vida nos mocambos alagados da capital, mas que voltara depois, frustrada, para se reconstruir ali no seu sertão mesmo, ela que reagiu à miséria de seu passado abrindo um negócio próprio, cujo sucesso atribuía aos “ensinamentos e orientação do Sebrae”, que, em certa ocasião, ministrara oficinas em Ingá. Dona Lia do Cuscuz tinha entrado para a “rota cultural” do Cariri, e vivia há algum tempo de contar aos visitantes e fregueses de seu pequeno terraço-restaurante o drama de sua vida, enquanto preparava e ia servindo os pratos tradicionais da cozinha da região: bolo de mandioca, inhame cozido, cuscuz, carne de bode, galinha, tapioca, entre outros.

As mulheres da Justiça comoveram-se com a narrativa de dona Lia. Algumas choraram. Mas eu, não — que aquela tragédia eu conhecia bem, era a mesma de minha mãe, de minha tia e minha avó, travessias com as quais aprendi a endurecer para seguir tocando adiante meu destino.

VOLTANDO AO FIM: último dia, 27 de agosto, hotel fazenda na zona rural de Monteiro

Era chegado o momento em que me cabia conversar com as mulheres da Justiça sobre literatura, sobre como se construía, na ficção, mulheres de liderança. Na sala de uma antiga fazenda da zona rural de Monteiro, meados da tarde, me vi cercada pelas 12 componentes da comitiva, além das quatro coordenadoras do programa “Caminhos para a Liderança de Mulheres na Justiça”.

Olhei pelo janelão do cômodo a paisagem lá fora. Não se viam restos de verde ali, que a época de seca — “tormento e martírio da terra” — já se apresentava no lugar, e logo a caatinga haveria de começar a ferir, com seus gravetos e espinhos, quem ousasse atravessá-la sem gibão, guarda-peito e perneira.

Senti falta desses apetrechos de proteção, porque me sentia nua diante das espectadoras, diante das páginas indefesas de dois livros meus, lidas em voz alta pelas magistradas, promotoras, procuradoras, defensoras, nos poucos trechos que selecionei. Adverti as participantes de que aquelas personagens de papel e tinta (armas fracas, como dizia Graciliano Ramos) eram tudo o que eu dispunha para mostrar. De que o discurso delas não passava de bravatas de ficção — “Eu não gosto de pessoas que pedem, eu gosto de pessoas que conseguem”, diz a protagonista de “As Mulheres de Tijucopapo”; “Sou semiárida, beligerante e corsária”, declara a protagonista de “Corsária”. Bravatas de mulheres inventadas.

Mas as agentes da Justiça responderam emocionadas, chorando ou engolindo soluços, àquela sessão de leitura curta, identificadas com não sei que palavrório escrito por mim, com não sei quais sentimentos e explosões de raiva daqueles experimentos literários meus.

Prossegui na advertência: de que eu tinha plena consciência do papel acessório da literatura na conformação deste mundo, de que literatura, no meu modo de ver e fazer, não passava de um jogo infantil, um pega-pega, um corpo-a-corpo com a língua, na busca por uma linguagem que exprimisse o que ninguém nunca exprimiu por mim, nem poderia.

Importantes, eu disse a elas, eram as lideranças reais das cooperativas e associações de mulheres batalhadoras que conhecemos. Importantes e essenciais eram elas, as mulheres da Justiça, na tentativa de se aprofundarem, a partir daquele Programa, numa trajetória que contribuiria para a democratização do Sistema de Justiça e a redistribuição mais equitativa do poder no nosso Judiciário machista, de hierarquia escusa e obscuro.

Aquela excursão junto a elas, pelo sertão onde nasceu minha mãe, fez aflorar em mim um sentimento de sororidade, uma comoção que julgava morta

E só faltou confessar-lhes uma coisa: que aquela excursão junto a elas, pelo sertão onde nasceu minha mãe, fez aflorar em mim um sentimento de irmandade, de sororidade, uma comoção que eu já julgava morta. Afinal, a luta que conheço vem de longa data, e se prolonga tempo adentro, com apenas algumas batalhas ganhas. Afinal, foi em 1968, em plena era da contestação, do movimento por liberdade e libertação, que Yoko Ono proferiu numa entrevista a tal frase “woman is the nigger of the world”, que John Lennon desenvolveu depois como canção. A música — apesar da oposição causada então pelo uso do terno “nigger”, ofensivo ao povo preto dos Estados Unidos — foi encampada por organizações feministas da época, que reconheceram ali o legítimo protesto contra a opressão sofrida pelas mulheres do mundo.

Foi o que me faltou contar a elas: que 1968 ocorreu há muito e muito tempo, mas que no mesmo álbum (“Some Time in New York City”) da frase-canção de Yoko Ono, ela e Lennon incluíram a música “Angela”, de Lennon, uma homenagem à ativista política americana Angela Davis, no período em que ela esteve presa, de 1970 a 1972. Quer dizer, eu queria ter encerrado minha conversa com as mulheres da Justiça expressando-lhes meu renovado sentimento de sororidade, na tradução livre que eu faria de “Angela”, em homenagem a elas: “Minha irmã, tem um vento que nunca para de soprar. Minha irmã, estamos aqui respirando junto contigo. Angela, você consegue ouvir a terra girando, sister? Então, minha irmã, nosso amor e nossa esperança continuam seguindo adiante nesse mundo, ainda que tão lentamente… Angela, você está ouvindo a terra girar? Então, Angela, tua palavra vai longe, alcança altas distâncias, sister!”.

Marilene Felinto nasceu em Recife, em 1957, e vive em São Paulo desde menina. É escritora de ficção e tradutora, além de atuar no jornalismo. É bacharel em Letras (inglês e português) pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP). É autora, entre outras 12 publicações, do romance "As Mulheres de Tijucopapo" (1982 – já na 5ª edição; Ubu, 2021), que lhe rendeu o Jabuti de autora revelação e é traduzido para diversas línguas. Seu livro mais recente é o romance "Corsária" (Fósforo, 2025).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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