COLUNA

Marilene Felinto

O ex-jornal, o ex-jornalismo

Tudo indica que, nos veículos de comunicação de grandes corporações brasileiras, letramento racial, diversidade, inclusão só se realizam até agora como farsa

12 de Dezembro de 2025

Chegou de Nova York o comentário, via Whatsapp, que dizia: “By the way, the Folha editorial board is so white”, ou seja, “Aliás, o conselho editorial da Folha é tão branco”. E vinha, junto ao comentário, o link para a notícia em português, texto do próprio ex-jornal, tratando da mudança recente na composição do tal conselho.

Minha primeira reação foi de preguiça de responder a mensagem vinda de NY. Preguiça que se explica: não assino ex-jornais nem ex-revistas, não leio a imprensa corporativa, a não ser pontualmente, não leio colunistas, não escuto podcasts, não assisto ao blablabá pseudoisento, metido a esperto e exclusivo, à empáfia monocórdia de comentaristas de TV a cabo sobre política ou outros temas.

Preguiça. Porque precisaria pedir a algum amigo assinante que me enviasse o texto da tal notícia (caso eu decidisse responder ao remetente da mensagem). Mas, no fundo, eu sabia que nem precisaria ler a tal “notícia”, pois já intuía o conteúdo: imaginei o convescote de gente branca escolhida para o tal “editorial board”, os poderosos rentistas de sempre, celebrados pela ações de caridade que praticam aqui e ali. Outros, do grupo dos apaniguados de todo tipo, jornalistas direitistas babões, expoentes do universo do aconselhamento, tendentes a influenciadores digitais, ou do entretenimento, banhados a algum verniz de progressismo mais ou menos crítico do establishment, mas só até onde é permitido pela linha editorial da publicação da qual eles, obviamente, não passam de cúmplices.

Esbocei na minha cabeça um rascunho de resposta: poder atrai poder, dinheiro atrai dinheiro. E ponto. O resto somos nós, os mortais, os submetidos, os subalternos, os equivocados como eu que, não faz tanto tempo, por um grave erro de avaliação, aceitei voltar a escrever no ex-jornal depois de um período de longa ausência .

Pensei tudo isso, mas não respondi ainda ao remetente, um importante intelectual negro sul-africano radicado em Nova York, professor universitário de relações internacionais e estudos de mídia numa universidade americana daquela cidade. Ele é muito interessado no Brasil, do futebol à política nacional, dos laços do Brasil com a África à importância que ele dá a nosso país na geopolítica global.

Ele sabe da minha trajetória no ex-jornal, daí ter me mandado a observação sobre o tal “editorial board”, ele sempre muito antenado; e eu, absolutamente desinteressada do tema — até meio envergonhada de dizer a ele que pouco me importa esse ex-jornal, os outros ex-jornais, as ex-revistas, o ex-jornalismo, enfim, o universo decrépito e desacreditado da imprensa brasileira corporativa, alinhada à ideologia da direita e disfarçada de neutralidade.

Mas como sei que a academia é um ambiente sério, não muito afeito a emoções destemperadas, era preciso refletir melhor na resposta, esquecer minha trajetória pessoal, tratar de dados e fatos — embora ele, como professor, saiba melhor do que eu que no universo empresarial-liberal mundo afora, os chamados “colegiados” são sempre território da classe dominante, especialmente na mídia instrumentalizada por eles.

O poder econômico no Brasil não tem afinidade racial com negros, não os suporta: preto reclama, reivindica, pede igualdade de direitos e reparação

E quais seriam os fatos, ou o fato, enfim? Preciso dizer ao professor que o próprio ex-jornal em questão ensaiou há pouco tempo (em 2021) dar uma pincelada de “diversidade” no seu “editorial board”. Botou ali um ou dois pretos como tentativa. Mas parece não ter funcionado. Em nada a presença daquela minoria no conselho influenciou decisões ou a política interna (a “compliance”, como eles gostam de dizer hoje em dia) da empresa no que se refere a representatividade ou a direitos dos racializados negros. Muito pelo contrário. Na ocasião, a publicação autorizou sem restrições textos de colunistas e intelectuais brancos com ataques virulentos à luta negra antirracista, de emancipação e afirmação identitária no país. Um horror.

Na verdade (eu talvez diga ao professor), o poder econômico no Brasil não tem mesmo afinidade racial com negros, não suporta pretos, não tem saco: porque preto reclama, reivindica, pede igualdade de direitos e reparação. E essa classe não quer reparar nada, não admite alteração real no seu status quo de privilegiados. Eles até hoje não engolem as políticas de afirmação, inclusão e valorização da maioria negra criadas e instituídas pelos governos do PT nos últimos anos — governos, “by the way”, perseguidos de morte o tempo todo pelos barões do capitalismo midiático nacional.

Por tudo isso é que eu admiro tanto atualmente (isso eu diria ao amigo professor com convicção) essa juventude que não lê a imprensa corporativa, nem os ex-jornais, nem as ex-revistas, que não tem aparelho de TV em casa e não assiste a telejornais nem acredita na mídia que se diz repositório da “verdade factual” (Verdade para quem? De que fatos selecionados por ela?).

Essa juventude talvez já conheça o que eu, como velha, há tempos conheço de berço: as formas silenciosas que o poder econômico encontra de naturalizar desigualdades profundas no cenário obsceno da concentração de renda e poder no Brasil.

Não sei como essa juventude vai resolver a equação perversa entre cujos fatores se vê premida: entre a manipulação criminosa da imprensa decadente e a mentira também criminosa dos influenciadores digitais que abundam por aí na esculhambação generalizada das redes sociais.

Para encerrar, talvez eu diga ao professor que fiquei surpresa ao notar que os editores de uma nova publicação digital noticiosa dos Estados Unidos — que conversaram recentemente comigo sobre uma eventual colaboração minha com eles — parecem navegar no mesmo barco, este que chamo de ex-imprensa, de ex-jornais, de ex-jornalismo. Surpresa de que os editores sejam jornalistas dissidentes de publicações conceituadas (como The Guardian, The New Yorker etc.), que eu imaginava menos indecentes que as brasileiras!

Pois, então, esses jornalistas dissidentes querem apresentar outro tipo “verdade factual”, centrada no interesse coletivo da maioria marginalizada — ainda que esse propósito ativista e meio utópico não seja mesmo novo nem lá nem aqui —, desde a condição de semiescravização em que ainda vive a população negra brasileira até o genocídio palestino e o descaso da comunidade internacional para com a África. Neste último tema, basta comparar os esforços políticos do mundo rico e o destaque midiático que ganham Rússia e Ucrânia em detrimento da guerra civil e da crise humanitária que vem matando milhares de inocentes na República Democrática do Congo.

Devo encerrar dizendo ao professor Jacobs: tudo indica que, nos veículos de comunicação de grandes corporações brasileiras — oligopólios históricos, nunca regulados pelo poder público, conforme manda, professor, o parágrafo 5º do artigo 220 da Constituição brasileira —, letramento racial, diversidade, inclusão só se realizam até agora como farsa, já que a verdade mesmo mora no capitalismo de dominação branca e sua tecnologia de opressão do que eles definiram como outra raça, negra e inferior.

Marilene Felinto nasceu em Recife, em 1957, e vive em São Paulo desde menina. É escritora de ficção e tradutora, além de atuar no jornalismo. É bacharel em Letras (inglês e português) pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP). É autora, entre outras 12 publicações, do romance "As Mulheres de Tijucopapo" (1982 – já na 5ª edição; Ubu, 2021), que lhe rendeu o Jabuti de autora revelação e é traduzido para diversas línguas. Seu livro mais recente é o romance "Corsária" (Fósforo, 2025).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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