COLUNA

Marilene Felinto

Direito ao desinteresse

Tenho preferido releituras, e o silêncio ao ruído estrondoso da geopolítica das nações genocidas

16 de Janeiro de 2026

Ignorar a pauta, a notícia, permanecer calado, e como se surdo, ouvidos moucos, em silêncio. Não manifestar (nem sentir) nenhum interesse real nos ataques à Venezuela promovidos pelo governo americano pistoleiro de faroeste, totalitário e assassino.

“Você tem o direito de permanecer em silêncio” — essa frase, na lei, chama-se “O Aviso de Miranda”. A expressão se consolidou, no contexto dos direitos constitucionais de alguém suspeito de um crime, a partir de um processo judicial chamado “Miranda v. Arizona” que ocorreu nos Estados Unidos nos anos de 1960. No Brasil, passou a constar na Constituição de 1988.

(Ressalte-se que o estado do Arizona foi também lugar de faroeste, o movimento a bala, sem lei, que levou para toda a região a oeste do rio Mississipi a colonização daquele território de bangue-bangue, entre os séculos 17 e 19).

Mas os Estados Unidos aqui pouco importam — ainda mais num momento como este, em que aquela “superpotência que inventa supermentiras” está refém de mais um de seus governos ridículos, para dizer o mínimo, em que os bandoleiros querem estender o “Velho Oeste” para a América do Sul, para a Groenlândia, para onde decidirem que vão, como sempre fizeram ao longo da história.

Mas os Estados Unidos aqui pouco importam — ainda mais num momento como este, em que aquela ‘superpotência que inventa supermentiras’ está refém de mais um de seus governos ridículos

No “Aviso de Miranda”, coisa de que só ouvi falar recentemente (a expressão em si, não a lei) meu interesse é lexical, resume-se à frase ela mesma, à forma que achei poética. Mas é verdade que uma coisa (o aviso da lei, a notificação), não tem nada a ver com a outra — quer dizer, nem com a pauta, nem com a notícia, nem com a arrogância imperialista dos EUA, nem com a Venezuela nesta minha livre associação de desinteresses.

No entanto, a expressão “Aviso de Miranda” logo perderia a poesia aos meus ouvidos — soube que o nome surgiu para proteger da autoincriminação um réu de nome Ernesto Miranda, criminoso confesso, preso por sequestro e estupro, mas cuja confissão foi anulada porque, durante seu interrogatório, ele não foi avisado de seus direitos (ao silêncio e a um advogado).

Mas, então, onde esteve a poesia da expressão em si? Pois esteve na lembrança da personagem de Shakespeare, também “Miranda”, da peça “A Tempestade”, que reli faz pouco tempo. Miranda é filha de Próspero, duque que sofreu traição política de um irmão e foi exilado numa ilha deserta, onde passou a exercer seus poderes de mago. Ali ele criou sua filha Miranda desde menina, preparando-a para ocupar o poder e vingar-se do irmão traidor. Mas Miranda é sinônimo de sopro de vida nova, de contraste aos ódios da intriga política.

Então, na aparentemente ilógica associação de desinteresses que vai se constituindo neste texto, também o nome “Ernesto” remeteu-me a outro — a Ernesto Nemecsek, o comovente personagem de “Os Meninos da Rua Paulo”, do húngaro Ferenc Molnár, que também reli recentemente, passado mais de meio século da primeira leitura, na juventude. Livro lindo, da geopolítica da brincadeira de infância, em que meninos defendem a bolas de barro o terreno baldio que transformaram em território de fantasia e crescimento para a vida real adulta e terrível.

Tenho preferido releituras, e o silêncio ao ruído estrondoso da geopolítica das nações genocidas (Israel, Estados Unidos e outros), de pura ganância e crueldade. Daí que eu não tenha de fato nenhum interesse real nos ataques à Venezuela, a não ser por Diana V., a venezuelana que passou por nossas vidas décadas atrás. Não sabemos o que foi feito dela. Naquela época, Diana teve um namoro breve com um amigo meu (um tanto deprimido e neurótico) e atravessou a vida dele como um raio de sol, quente e colorido — porque Diana era vívida, entusiasta e risonha. Assim é a Venezuela que interessaria.

Mas está claro que Diana não tem nada a ver com os outros temas deste arrazoado sem nexo aparente — quer dizer, nem com o Aviso de Miranda, nem com a personagem shakespeariana, nem com Ernesto Nemecsek, ainda que tenha sido a investida imperialista sobre a Venezuela que trouxe à tona a lembrança de Diana V.

Preponderante é o meu desinteresse — pela pauta, pela notícia da hora, pela leitura do mundo como ele é, ouvidos moucos para o amontoado de especulações de jornalismo barato, movido a furos jornalísticos fabricados, sem lastro, hipócrita.

Direito ao desinteresse, à livre associação de coincidências de vida, de descobertas e releituras (Mirandas, Diana, Ernestos), direito ao nonsense, já que nem o fato geopolítico nem (muito menos) a notícia sobre ele fazem sentido nenhum.

Marilene Felinto nasceu em Recife, em 1957, e vive em São Paulo desde menina. É escritora de ficção e tradutora, além de atuar no jornalismo. É bacharel em Letras (inglês e português) pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP). É autora, entre outras 12 publicações, do romance "As Mulheres de Tijucopapo" (1982 – já na 5ª edição; Ubu, 2021), que lhe rendeu o Jabuti de autora revelação e é traduzido para diversas línguas. Seu livro mais recente é o romance "Corsária" (Fósforo, 2025).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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