COLUNA

Marilene Felinto

Da propaganda intrusiva ao jornalismo-celebridade

No ambiente digital, o que se passa é o deslocamento forçado do olhar do leitor-internauta do texto para o anúncio em formato de vídeo intrusivo

21 de Agosto de 2026

Ainda um pequeno choque (e uma enorme irritação) diante da preponderância da imagem e do som (do vídeo-áudio) sobre o pobre do texto escrito. No ambiente digital, o que se passa é o deslocamento forçado do olhar do leitor-internauta do texto para o anúncio em formato de vídeo intrusivo.
“Vídeo intrusivo” é aquele tipo de anúncio cuspido na tela a todo momento, muitas vezes encobrindo parte do texto (ou todo ele), até que o leitor consiga fechá-lo e tirá-lo de cena — quase sempre apenas no momento em que o anunciante lhe permite fazer isso!

De mãos atadas, o leitor-internauta espera o momento de clicar no maldito “X” que encerre a escandalosa intromissão. Ainda assim, podem vir outros anúncios em sequência! No jargão do marketing, e para usar uma definição de IA, “geralmente, esses formatos usam uma tecnologia chamada ‘sticky’ (que ‘gruda’ ou ‘grudento’) ou flutuante. Conforme o leitor rola a página, o vídeo começa a rodar sozinho (‘autoplay’) e, para garantir que o usuário o veja (forçando a atenção), ele ‘gruda’ em um canto da tela (geralmente no inferior direito) ou pausa a rolagem do site se o usuário tentar passar reto sem interagir”.

Ou seja: ler um texto noticioso, por exemplo, de um portal de notícias qualquer, virou um tormento para o leitor interessado somente em minimamente se informar. Não bastasse a propaganda insidiosa, os anúncios-insetos pululando aqui e ali na tela, o coitado do leitor ainda se vê vítima da veiculação de vídeos jornalísticos das mesmas matérias que ele tenta ler.

Na linguagem do marketing, chama-se isso de “estratégia de multimídia e convergência digital”. É a onda atual, a moda do jornalismo-celebridade, a qual supõe que o repórter ou o “âncora” no vídeo está “emprestando sua credibilidade” ao portal noticioso. Mas qual credibilidade? E quem está de fato interessado em ver-ouvir resumos deste ou daquele jornalista? Já não bastassem os textos normalmente mal escritos e descaradamente pautados e censurados pela empresa jornalística, ainda impõem que se veja a locução da coisa.

Quem suporta jornalista elevado ao status de celebridade? Essa atividade deveria voltar a ser exercida (isso sim!) com a seriedade, a discrição e a responsabilidade que caberiam a quem tem como ofício informar, zelar por alguma verdade no processo de comunicação, como se fazia em tempos outros.

Então, já não bastassem essas invasões multimídia interferirem num processo que deveria ser de silêncio, de leitura concentrada, solitária e crítica, ainda prestam um desserviço àqueles que poderiam aproveitar a leitura do texto como exercício de conhecimento da língua e da escrita, àqueles de escolarização precária, os tantos e tantos brasileiros de ofícios e áreas as mais diversas.

O momento é de abuso contra quem tenta apenas ler e ter liberdade de escolha, sem precisar ‘interagir’ com nada nem ninguém na marra

Não é à toa, aliás, que quando o WhatsApp lançou o recurso de envio de mensagens por áudio, o cidadão pouco escolarizado parou definitivamente de enviar mensagens de texto por meio daquele aplicativo — trocou-as por áudios, mais simples, mais fácil de fazer e sem o constrangimento de achar que estava cometendo erros de escrita.

Encerrou-se nessa troca a “tentativa e erro” que se lia nas mensagens escritas da diarista, do porteiro, do trabalhador rural… e, também (é bom mencionar), até mesmo do jornalista, do “influencer”, do intelectual etc. etc.

E não se trata de impor aqui a norma culta a quem não conseguiu frequentar a escola (o porteiro, a diarista, o trabalhador braçal), ou só fez isso de forma fragmentária e falha. Nem se trata de hierarquizar modelos culturais, modos e meios de comunicação, muito menos de defender a gramática pura ou descambar para a arrogância classicizante. Nada mais louvável do que o fato de que o acesso às tecnologias digitais esteja disponível às diversas camadas sociais, ainda que, para a maioria, apenas na tela acanhada do aparelho celular.

O que se defende aqui é o direito à informação como direito humano de todos, de formação educacional igualitária e de participação na vida cultural, nas artes e no progresso científico. Não se pode dificultar ou impedir a diarista de ter acesso ao texto escrito em eventual língua formal. O que o anúncio intrusivo ou o vídeo jornalístico acabam fazendo é exatamente isso: dificultam o exercício da leitura, bloqueiam o texto escrito.

O momento é este: triste, de ruído, de poluição visual obstruindo a página — um horror, um abuso contra quem tenta apenas ler e ter liberdade de escolha, sem precisar “interagir” com nada nem ninguém na marra. Momento de pobreza espiritual e textual.

Rico mesmo é o léxico da minha diarista. Só que, como ela parou de escrever no WhatsApp, perdi de vista os brasileirismos preciosos da língua que ela fala, e que antes apareciam também em frases escritas: “Será se é verdade que vai chover?” (em vez de “será que é”…?); “Eu rariamente saio de casa essa hora” (em vez de “raramente”…), e assim por diante. Ela é do sertão da Bahia, e escreve assim como quem fala esta genuína e legítima poesia: “Eu sou muito apoucada nas comidas daqui de São Paulo, ainda não sei fazer direito)!

É isto: continua depois da publicidade. Ou melhor: basta clicar em “continuar lendo”.

Marilene Felinto nasceu em Recife, em 1957, e vive em São Paulo desde menina. É escritora de ficção e tradutora, além de atuar no jornalismo. É bacharel em Letras (inglês e português) pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP). É autora, entre outras 12 publicações, do romance "As Mulheres de Tijucopapo" (1982 – já na 5ª edição; Ubu, 2021), que lhe rendeu o Jabuti de autora revelação e é traduzido para diversas línguas. Seu livro mais recente é o romance "Corsária" (Fósforo, 2025).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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