COLUNA

Luara Calvi Anic

Veja bem: Gordon Parks

Exposição no IMS-SP apresenta vasta produção do fotógrafo estadunidense, com impressões de alta qualidade da Gordon Parks Foundation, nos EUA

30 de Setembro de 2025

As fotografias de Gordon Parks (1912-2006) têm algo de cinematográfico. Isso se deve não apenas pela textura de película, mas ao modo como ele, um dos maiores fotógrafos do século 20, buscava retratar seus personagens de maneira grandiosa. “Você vê as pessoas encarnadas naquela imagem, isso é muito forte”, diz Janaina Damaceno, curadora do IMS-SP, que inaugura uma exposição sobre o estadunidense.

Muçulmanos negros. Sem título, Harlem, Nova Iorque, 1963
Muçulmanos negros. Sem título, Harlem, Nova Iorque, 1963
Foto de Gordon Parks / Cortesia © Fundação Gordon Parks

Parks registrava especialmente a comunidade negra e os movimentos civis organizados. Mas, mais do que isso, tinha o compromisso de ressaltar a dignidade daqueles que enfrentavam a segregação racial nos EUA. “Enquanto ele fotografava algumas das imagens mais importantes da história da fotografia americana, pessoas negras ainda estavam sendo linchadas, inclusive crianças e mulheres”, diz Damaceno, em episódio do Podcast da Gama (estreia em 4/10).

Seus registros se opõem às imagens deteriorantes e estereotipadas de pessoas negras que circulavam na época. “Eram muito populares nos EUA os cartões postais com imagens de linchamentos”, diz Damaceno. “Ou então imagens de docilização dos corpos negros, como da Tia Jemima, nos EUA [personagem que estampava rótulos de xaropes para panquecas], que no Brasil se associa muito à imagem da Tia Anastácia [do Sítio do Pica-Pau Amarelo]“.

Esq: Sem título (Eldridge Cleaver, sua esposa, Kathleen Cleaver, e seu filho Maceo Cleaver), Argel, Algéria, 1970. /// Dir: Sem título (Muhammad Ali), Miami Beach, Flórida, 1970
Esq: Sem título (Eldridge Cleaver, sua esposa, Kathleen Cleaver, e seu filho Maceo Cleaver), Argel, Algéria, 1970. /// Dir: Sem título (Muhammad Ali), Miami Beach, Flórida, 1970
Foto de Gordon Parks / Cortesia © Fundação Gordon Parks

Parks foi o primeiro fotógrafo negro a publicar na Life (1948), importante revista de atualidades da época, e também colaborou com fotografias de moda para a Vogue. Sua produção traz tanto o olhar estético apurado quanto o faro de repórter – é o caso das reportagens sobre temas que jornalistas brancos não cobriam, como as guerras de gangues no Harlem (NY). Além de incorporar um ativismo relacionado à sua trajetória e ao momento histórico.

“A gente fica pensando no fotojornalismo como algo objetivo, que você não tem que se envolver. Mas dá para fazer isso num país que está segregando o outro? Será que existe objetividade? Esse país já venceu todo tipo de objetividade”, diz Damaceno.

Sr. e sra. Thorton. Sem título, Mobile, Alabama, 1956
Sr. e sra. Thorton. Sem título, Mobile, Alabama, 1956
Foto de Gordon Parks / Cortesia © Fundação Gordon Parks

“A América sou eu” abre em 4/10 – Janaina Damaceno, curadora; Iliriana Rodrigues, curadora-assistente.


Em sua coluna “Veja bem”, a jornalista Luara Calvi Anic trata de exposições, livros de fotografia e acervos fotográficos

Luara Calvi Anic é jornalista, editora-chefe da Gama revista, onde coapresenta o Podcast da Semana. Foi livreira, editora de cultura e comportamento da ELLE e de outros títulos da Editora Abril, repórter da Trip/Tpm e colaborou com Folha de S.Paulo. Tem mestrado em ciências da comunicação pela ECA-USP, com foco em fotografia e imprensa brasileira dos anos 1960.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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