COLUNA

Luara Calvi Anic

Emicida: “As imagens feitas por Walter Firmo me trazem uma série de sons”

Rapper, cantor e compositor fala da escolha de Walter Firmo para fotografar seu novo álbum. “Suas imagens se parecem com janelas, você quer mergulhar nelas”

01 de Junho de 2026

Algumas das fotos de Emicida para “Mesmas Cores & Mesmos Valores” (2026) — novo álbum que homenageia o Racionais Mc’s — foram clicadas por Walter Firmo, reconhecido fotógrafo brasileiro que trabalhou nas principais revistas e jornais do Brasil nos anos 1950 e 60.

Emicida por Walter Firmo

Tendo passado por publicações como o Jornal do Brasil e as revistas Realidade e Manchete, ao longo de sua trajetória Walter Firmo ficou conhecido pelos retratos. Aos 89 anos, ele costuma dizer que, antes mesmo do clique acontecer, já está pensando como é que essa foto vai ser feita. “Na minha tese, sou o engenheiro [da foto], aquele que trabalha com arco, régua e compasso. Trabalho com a luz, escolho se a foto vai ser vertical, horizontal; se vou trabalhar com a coisa do background e com a composição”, diz a Gama.

O fotógrafo carioca, que foi correspondente internacional em Nova York pela revista Manchete, é lembrado pelas fotos coloridas que, com luz e direção características celebram seus personagens por meio da fotografia. Firmo clicou ícones da cultura negra no país e nomes essenciais da música brasileira, como Pixinguinha, Clementina de Jesus, Jamelão, Dona Ivone Lara, Paulinho da Viola e, agora, Emicida. O rapper, cantor e compositor paulistano sempre acompanhou o trabalho de Firmo e, no depoimento que concedeu a Gama, conta que o convite foi também uma forma de homenagear o legado do fotógrafo. Confira:

“Na verdade, eu encontro o Walter [Firmo] antes dele me encontrar por duas razões. A primeira é porque, como um aficionado por música do Brasil, eu conheci o trabalho do Walter como fotógrafo enquanto eu consumia a obra dos meus maiores ídolos. Então, imagina que, enquanto eu escutava aqueles discos eu também viajava nos encartes e nas capas com as imagens do Walter.

Foi nosso primeiro contato ali, mesmo que ele tenha sido unilateral. Mas também tem uma outra coisa que poucas pessoas sabem: antes de me tornar um artista do som, eu sou um artista visual. Minha primeira formação, inclusive, é design gráfico. A segunda, em quadrinhos. Então eu sempre tive uma paixão muito grande pelo universo da imagem e, de alguma maneira, até mesmo na concepção do que eu faço. E acho que o último disco evidencia isso de uma maneira maior do que nos outros, eu tento compor de uma maneira sinestésica, onde o som evoca a imagem da mesma maneira que, por exemplo, as imagens feitas pelo Walter me trazem uma série de sons.

Essa foi a razão pela qual o nome do Walter me veio tão forte no momento de fazer um projeto como ‘Mesmas Cores & Mesmos Valores’, porque eu acho que ele [o disco] sintetiza, antes de qualquer outra coisa, a solidificação da música rap, do gênero rap, como um gênero maduro, adulto e que pode, inclusive, revisitar a si mesmo para contar a própria história. Esse, por ser um marco importante, exigia uma perspectiva sensível.

E aí a gente traz dois profissionais para ajudar na concepção disso que foram muito marcantes. O primeiro é o Ênio Cesar, que é um fotógrafo, um amigo que me acompanha desde o começo da minha trajetória. Então, se você olhar os arquivos do Ênio você vai ver que ele tem registros de muito tempo, do início da minha carreira mesmo. E parte das imagens de divulgação são do Ênio. E a gente tem também a capa que foi feita pelo Walter Firmo. Assim como outras imagens que temos utilizado na divulgação.

Emicida por Walter Firmo

Porque a gente também queria esse peso histórico a partir de uma perspectiva do Brasil, a partir de uma perspectiva negra. Tem se falado mais sobre esse assunto e eu fico muito feliz sobre isso. E mais feliz ainda de poder ter o Walter Firmo ainda com a gente aqui e poder prestar uma homenagem a ele, mas uma homenagem a essa forma de se fazer retratos a qual ele faz jus.

E eu, conversando com ele outro dia, falei isso para ele: acho que o Walter elaborou uma forma de fazer imagens que é uma fotografia samba. Ele conseguiu absorver o samba como estilo de vida, como uma maneira de existir e converter isso no material fotográfico que ele apresenta. Por isso, por ter uma amplitude tão grande, uma sensibilidade tão encantadora… Eu ficava zoando ele no set, usando uma expressão que ele usa, inclusive. A fotografia do Walter Firmo traz sempre a sedução costumeira do Walter Firmo. E é sedutor.

As imagens do Walter se parecem com janelas, você quer mergulhar nelas. Lembra até um pouco do Gordon Parks. Algumas pessoas fazem essa associação e eu acho que ela faz muito sentido. Lembra um pouco do trabalho do Gordon Parks no estado de espírito, mas esteticamente falando um é bem diferente do outro por causa da luz no nosso país, por causa do ambiente cultural do nosso país, por causa da trajetória de vida de cada um deles.

O encontro com o Walter acaba não sendo uma coincidência. Acho que foi um destino. Um destino de alguém que conheceu o nome dele através dos encartes e traçou a própria jornada tentando fazer o possível para chegar perto dos seus ídolos. O Walter é um deles. Por isso, ele está na capa de ‘Mesmas Cores & Mesmo Valores’. “

Luara Calvi Anic é jornalista, editora-chefe da Gama revista, onde coapresenta o Podcast da Semana. Foi livreira, editora de cultura e comportamento da ELLE e de outros títulos da Editora Abril, repórter da Trip/Tpm e colaborou com Folha de S.Paulo. Tem mestrado em ciências da comunicação pela ECA-USP, com foco em fotografia e imprensa brasileira dos anos 1960.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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