COLUNA

Fernando Luna

Um trabalho de paciência executado por um impaciente

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre masculinidade DIY, prova de vida musical, cybercondríacos e um homem complicado (o original!)

31 de Agosto de 2026

Meu trabalho é um trabalho de paciência executado por um impaciente
Paul Valéry, 1926
Antologia Profética

Atenção, macho alfa: tá se sentindo emasculado pela emancipação das mulheres?

Em vez de subir uma montanha com os Legionários, votar no Flávio Bolsonaro versão sunga branca ou rasgar dinheiro em curso de red pill, vai montar um móvel pra resgatar sua masculinidade.

Num momento de insensatez, comprei uma escrivaninha pela internet: preço ótimo, design sabor escandinavo e madeira de verdade. Por que não? Clique, clique, cadastro, cartão, entrega em cinco dias.

O folheto de instruções era um desafiador infográfico de seis páginas.

Reconheci algumas peças, como o tampo de 1,30 metro e os quatro pés. Outras tavam além do meu precário repertório de trabalhos manuais: cavilhas de madeira estriada, pinos variados, tambor excêntrico de montagem (procure saber), parafusos Phillips (idem), chave Allen (idem idem).

Uni partes A com partes B, apertei, parafusei C com D, encaixei e terminei amaldiçoando todo o alfabeto DIY. Cada etapa vencida era uma estação na via-crúcis da minha jornada do herói.

No momento de juntar tudo, porém, não juntou.

Sobrou um lazarento vão entre o conjunto de pés e o lado direito do tampo, um vazio denunciando minha incompetência. Após uma hora me sentindo um artesão no ateliê do Alvar Aalto, produzi um móvel irritantemente bambo.

Fizesse eu um diário como Paul Valéry, escreveria uma entrada idêntica à dele: “Meu trabalho é um trabalho de paciência executado por um impaciente”. Respira.

Depois de xingar as peças desencontradas, as instruções ambíguas e principalmente a mim mesmo, desmontei tudo. A engenharia reversa forçada me mostrou onde tava o erro. Não era o feminismo.

Outra hora com mais jeito que força, e consegui uma escrivaninha firme e forte.

Bateu um inesperado orgulho de ter feito aquilo com as próprias mãos, como um neandertal caçando um mamute de bricolagem. Senti minha testosterona aumentar, meus feromônios entrarem em ebulição e três ou quatro pelos grossos nascerem no meu peito.

MGTOW, Men Going Their Own Way, é isso aí.

Temos nosso próprio tempo
Legião Urbana, 1986
Fui fazer prova de vida com velhos amigos no fim de semana. 

O Parque Ibirapuera virou Parque dos Dinossauros, eu jurassicamente incluído, com shows de Legião Urbana, Titãs, Paralamas, Marina Lima, RPM, Blitz, Plebe Rude e Ira!, além de tributos a Cazuza e Rita Lee – que nem é dessa geração, mas quem se importa?

A trilha sonora da minha adolescência carioca.

*

Vantagem daquele Rio de Janeiro, fora tudo: vi essas bandas tocando nalgum canto da cidade, Praça da Apoteose ou Mamute, praia de Copacabana ou Circo Voador, Noites Cariocas ou Metrópolis.

Rever todas juntas convida a um balanço duplo.

Por um lado, que país é esse, quatro décadas depois de escapar da ditadura e se lambuzar de liberdade? Por outro, há um acerto de contas pessoal acontecendo na cabeça de cada espectador: a quantas anda aquele garoto que ia mudar o mundo?

*

Meu primeiro show de adulto, digamos assim, foi da Blitz.

Tia Têca me levou ao Canecão, em 1982. Não esqueço Evandro Mesquita, Fernanda Abreu e companhia vestindo capas com bordas coloridas, fosforescentes na luz negra do palco. New wave total.

Agora, fui eu quem levou uma criança pra plateia. Ela sabe cantar “Você não soube me amar” mesmo sem dancinha no TikTok e ainda puxa os “esses” da letra, como se fosse uma menina do Rio: “Desssce doixxx, desssce maixxx”.

Será que vai lembrar dessa tarde daqui a 44 anos?

*

“Dois” deve ter sido o disco que mais escutei na vida.

Tive que fingir costume quando entrevistei o Renato Russo. A conversa aconteceu na casa dele – a cinco quarteirões de onde eu morava dez anos antes, quando gastava a agulha da vitrola do meu avô com “Tempo perdido”, “Eduardo e Mônica”, “Quase sem querer” e “Índios”.

Era um daqueles predinhos antigos de Ipanema: o cantor e compositor mais venerado do país aboletado num apartamento de 136 metros quadrados.

*

Os recalcados que chiaram com a virilha da Xuxa devem ter estrebuchado com o figurino da Marina Lima – toda de barriguinha de fora, fullgás.

Há três coisas que gostaria de te dizer, mas a segunda contradiz a primeira e a terceira é um mal-entendido
Cristina Peri Rossi, 1987

Tudo bem? Hum, melhor consultar seus dados antes de responder.

Cada vez mais gente terceiriza pras máquinas a percepção de como tá se sentindo. Repara na profusão de “wearables” por aí: relógios, pulseiras e anéis supostamente inteligentes.

(Inteligentes são as Big Tech. Monitoram cada clique da humanidade e ainda fazem uma galera pagar pra entregar as mais pessoais das informações pessoais.)

Conheço uma figura que usa ao mesmo tempo Apple Watch, Google Fitbit e Oura Ring. O relógio monitora os batimentos cardíacos. A pulseira mede a saturação de oxigênio. O anel fiscaliza o sono.

Só que o relógio também mede a saturação de oxigênio, a pulseira também fiscaliza o sono e o anel também monitora os batimentos cardíacos, entre muitos outros indicadores mais ou menos científicos – não dá pra levar muito a sério índices como “Body Battery” ou “Readiness Score”.

Frequentemente os aparelhinhos discordam uns dos outros, confusos como o eu lírico do poema de Cristina Peri Rossi.

“Há três coisas que gostaria de te dizer, mas a segunda contradiz a primeira e a terceira é um mal-entendido”, escreve em “Aos amigos que me recomendam viagens”, só pra concluir: “Preferível é o silêncio”.

O cybercondríaco não suporta o silêncio. Mas sua obsessão por medir cada sinal e ruído do metabolismo só provoca mais ansiedade e estresse.

Ele habita o corpo corporativo: o organismo tratado como uma empresa.

Não basta bater meta no trabalho, precisa atingir os KPIs biológicos. Tempo de recuperação pós-treino acima do benchmark? Fica sem bônus. O sono REM caiu 23% no trimestre? Choque de gestão.

São todos discípulos de Bryan Johnson, o bilionário do documentário “O homem que quer viver para sempre”.

Ele gasta 10 milhões por ano pra não envelhecer. Mede cada biomarcador pra orientar sua rotina rigorosíssima. Só falta descobrir qual a graça de viver como um rato de laboratório.

Me conta sobre um homem complicado
Homero, século VII a.C.

Ai, amiga, e o Ulisses?

Sujeitinho complicado. Saiu de Ítaca pra comprar cigarro – ou foi pra tirar satisfação com um troiano folgado que pegou a mulher do seu parça Menelau? – e só voltou vinte anos depois, cheio de história.

Nem todo aqueu, mas sempre um aqueu.

Volta e meia alguém reconta a aventura homérica, só pelo prazer de dizer tudo novamente, mas com a própria voz. Agora foi o Christopher Nolan.

Em seu favor, não é todo dia que um poema vira blockbuster. “Odisseia” acaba de bater 1 bilhão de dólares em bilheteria. Ninguém chegou nem perto.

O “Ulisses” com Kirk Douglas é uma “Sessão da Tarde” em Technicolor. Ralph Fiennes se sai melhor em “O retorno”, mas o filme não empolga. Em “E aí, meu irmão, cadê você?”, o nome completo da personagem de George Clooney é Ulysses Everett McGill, o que dá o tom galhofeiro da adaptação dos irmãos Coen.

Faturamento à parte, o diretor inglês não se sai muito melhor.

O astucioso Ulisses vira um aborrecido Ulisses. O ciclope parece produzido com orçamento da TV Record, não com 250 milhões de dólares. A temporada do herói ao lado da ninfa Calipso fica tão luxuriosa quanto uma tarde no Poupatempo. A Atena da Zendaya lembra uma figurante de “Nosso Lar”. A mágica some, só Circe se salva.

Ah, mas viu em IMAX? Não. Muito menos em IMAX 70, formato épico dessa versão, com apenas 40 salas no planeta, nenhuma no Brasil. Não queria pegar fila nem avião, assisti no cinema da minha rua.

(Por outro lado, vi “Amarcord” em VHS e tevê de tubo. Mas até hoje aquele pavão abrindo a cauda pra colorir a rua coberta de neve continua abrigado num canto aconchegante do meu córtex.)

Se o audiovisual maltrata Homero, o áudio sem visual tem ao menos a canção de Zé Ramalho. “Mulher nova, bonita e carinhosa” adapta os decassílabos do repentista Otacílio Batista, conta a história de um cavalo de pau e faz o ouvinte gemer sem sentir dor.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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