COLUNA

Fernando Luna

O céu não cai do céu

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre como preencher a vaga de emprego mais importante do país, a escolha da Rainha da Primavera pelos juízes do STF e a retumbante volta das tretas no grupo de Zap da família

28 de Setembro de 2026

O céu não cai do céu
Régis Bonvicino, 1983

Olá, você que sonha com um CEO pra otimizar o Brasil.

O RH recebeu um currículo anonimizado pra essa vaga, assim sua avaliação não é afetada pela polarização geral da nação.

Só não esquece que o céu não cai do céu: precisa fazer a sua parte nas urnas no próximo domingo, pra ajudar Nossa Senhora Aparecida a proteger o país. Taí o LinkedIn dele. Agora é com você. Att.

• Sobre: Único candidato a presidente que pediu dinheiro pro Daniel Vorcaro. Profissional com mais de duas décadas de experiência, fazendo na vida pública o mesmo que faz na privada.

• Senador da República das Bananas | Advogado em causa própria | Empresário da Fantástica Fábrica de Chocolates | Investidor imobiliário em dinheiro vivo | Nepogolpista

• Rio das Pedras, Brasil | mais de 500 conexões perigosas.

• Atividades: Suspeitas.

• Experiência: Dois projetos aprovados em sete anos de Senado, onde barrou a PEC do fim da escala 6×1. Deputado estadual entre 2003 e 2018, com destaque pro uso intensivo dos caixas eletrônicos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

• Projetos: Anistiar golpistas | Decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo | Produção cinematográfica: apenas um filho procurando R$ 134 milhões para um filme sobre o pai.

• Pessoas também visualizaram:

Fabrício Queiroz – Chief Rachadinha Officer de gabinete na Alerj.

Adriano da Nóbrega – Head da milícia Escritório do Crime, homenageado na cadeia com a Medalha Tiradentes por serviços prestados.

Donald Trump – 47º presidente dos Estados Unidos da América do Norte, Sul, Leste e Oeste.

• Competências: Desconhecidas.

• Recomendações: “Meu irmãozão. Como ele mesmo escreveu, estamos e sempre estaremos juntos.” Daniel Vorcaro, Alcoviteiro-Geral da União

• Formação acadêmica: Bacharelado na Universidade da Muzema | MBA em Vozes da Cabeça de Olavo de Carvalho | Curso livre de Contabilidade Criativa na Kopenhagen.

• Interesses: Pessoais.

• Idiomas: Português – Nível básico a intermediário

Esta primavera não é flor que se cheire
Eudoro Augusto, 1978

Nesta terça (22) começa a nova estação, com El Niño anabolizado e temperaturas acima da média histórica no Supremo Tribunal Federal.

Desacreditado, o STF tá sem moral até pra julgar concurso de Rainha da Primavera. Ou não? Com a devida vênia, qual ministro merece a coroa de flores do campo:

Kassio Nunes Marques – Pulou fora já na apresentação inicial aos juízes. Mensagens mencionam pagamentos mensais de R$ 500 mil ao filho: precisamos falar sobre Kevin Marques.

Dias Toffoli – Também se escafedeu. Suspeito, suspeitíssimo, após desfilar em traje de banho no resort Tayayá.

Alexandre de Moraes – Prometeu testemunhas de sua inocência, “policiais e advogados”. Mas sua ficha exibe um contrato familiar de R$ 131 milhões com o Banco Master e um vídeo desembarcando do jatinho de Daniel Vorcaro.

Cármen Lúcia – Tentou garantir por aclamação o título de Miss Simpatia com seu voto popular, quiçá populista. “Peço desculpa ao povo brasileiro”, declarou. “Me sinto até um pouco envergonhada”. Estamos todos.

Gilmar Mendes – Acertou ao descrever o oportunismo de Mendonça como pixuleco eleitoral. Assim como Luís Roberto Barroso acertou quando definiu Gilmar como uma “mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”.

Cristiano Zanin – Se discrição fosse o único predicado exigido de uma Rainha da Primavera, levaria a coroa por W.O. Infelizmente não é.

Edson Fachin – O presidente do júri, pasmem, desconhecia até o regimento interno do concurso.

Luiz Fux – Sou ruim de genealogia financeira: se o filho Rodrigo Fux trata Vorcaro como “irmão” em mensagens no Zap, o que o juiz seria do ex-banqueiro? Pai? Padrasto? Fiador?

Flávio Dino – Pediu vista e adiou a coroação pra próxima estação – ou talvez pra nunca.

André Mendonça – Aprendiz de feiticeiro, entrou confiante e saiu chorando. A essa altura, o problema nem é escolher a Rainha da Primavera. É encontrar uma virgem no Baile dos Cadetes para compor o tribunal. Mas pior que um STF em crise, só uma crise sem STF.

Em épocas de crise, devemos todos decidir uma e outra vez a quem amamos
Frank O’hara, 1957

Tava com saudade de treta no grupo da família.

Desde a última eleição, a coisa andava insossa no núcleo duro do meu Zap. Foram quatro anos naquele ramerrame de foto de criança, convite pra festinha de aniversário, memes atrasados, card inspiracional com flores e bom dia de figurinha fofa.

Nada mobilizava os ânimos por lá. Recorde de emprego, queda da inflação, diminuição dos níveis de pobreza, fim da fila do osso com o Brasil saindo do Mapa da Fome e tombo no desmatamento, tudo recebido com um profundo e silencioso cri-cri-cri.

Até semana passada.

As barbaridades do STF funcionaram como um desfibrilador de ânimos, um choque de realidade no coração dos meus bolsominions favoritos. De repente, não mais que de repente, Vorcaro, Xandão e Mendonça levantaram a fervura da conversa.

Sim, ainda faço parte do Grupo de Apoio a Quem Tem Parente Próximo que Vota no Bolsonaro.

A única coisa que mudou é que agora eles dizem apoiar Flávio, por falta de Jair. Quero crer que fazem isso só pra me provocar. E conseguem. Estou a zero dias sem arrumar encrenca virtual por causa de nepogolpista trambiqueiro.

O importante é que a eleição começou, afinal.

Aquilo que parecia acontecer apenas nos levantamentos do Datafolha, Quaest, Ipsos-Ipec e AtlasIntel transbordou das pesquisas modorrentas pra cair nas paixões da vida como ela é. As ruas se agitaram e as famílias se digladiaram mais uma vez.

Em seu poema apropriadamente intitulado “À indústria do cinema em crise” – qualquer semelhança com a lavanderia de dinheiro do “Dark Horse” é mera ironia histórica –, Frank O’Hara escreveu e José Paulo Paes traduziu: “Em épocas de crise, devemos todos decidir uma e outra vez a quem amamos”.

Nesta crise institucional, vou seguir amando os meus. A família Bolsonaro já fez mal demais ao país. Não deixo que ela, além de tudo, ainda me indisponha com quem realmente importa: voltamos ao arranca-rabo do Zap, mas sem perder a ternura jamais.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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