COLUNA

Fabiana Moraes

Eu perdi o meu medo da chuva

O dia em que consegui nomear um receio, um fantasma, compreendê-lo como trauma: o dia em que eu finalmente não tive medo de dormir sozinha

26 de Junho de 2026

Relaxante muscular.

Melatonina.

Chá de camomila. Valeriana. Mulungu.

Dramin.

Álcool.

Luz acesa.

Televisão ligada.

Foram décadas com medo de dormir sozinha em casa. Aparentemente – eu disse aparentemente – nada muito racional. Então várias vezes precisava driblar o medo com luz, cerveja ou remédio quando meu filho dormia na casa do pai ou quando eu estava viajando a trabalho. Quando eu falava para alguém desse receio, as pessoas riam. Porque não era medo de ladrão: era medo de alma. Não era medo de assalto: era medo de algo que eu não sabia explicar.

De um jeito ou de outro, com olheiras mais roxas ou menos roxas, passou. Um dia, como era de se esperar, Mateus começou a se preparar para sair de casa. Deu um curto circuito: quase 30 anos convivendo com ele no mesmo teto, no mesmo CEP. Decidi que podia ser a tal síndrome do ninho vazio e fui tentando administrar. Não melhorou, muito pelo contrário. Procurei uma terapeuta: estava fragilizada, meio perdida. Ou, na verdade, assustada pra caralho.

Foi bom. Sabem como era o nome dela? Jesus.

Juro. Jesus.

Consegui falar sobre coisas que pareciam aparentemente – eu disse aparentemente – aleatórias. Em uma sessão, no meio de um assunto que eu tinha pragmaticamente colocado como prioridade, surgiu uma deriva. Nela, eu trouxe um período específico da minha infância. Jesus, uma senhora chique de pele preta e cabelo curto, ouviu. Depois falei sobre outra coisa, e outra, e outra. A brevidade da minha primeira vez morando sozinha continuava sendo explorada – estou escrevendo tentando organizar uma “cronologia”, mas confesso que não sei se foi exatamente assim.

Não era medo de ladrão: era medo de alma. Não era medo de assalto: era medo de algo que eu não sabia explicar

O que me lembro bem foi quando, perto de terminarmos o encontro, Jesus, que falava com os olhos meio fechados, disse baixinho: “Fabiana, você não está mais naquela casa, não é aquela criança, não está sozinha com ele. Aquilo não está acontecendo mais.”

Não era medo de ladrão: era medo de alma. Não era medo de assalto: era medo de algo que eu não sabia explicar.

***

Eu chorei do momento em que saí da sessão até chegar em casa. Preferi voltar a pé: digeria a lapada, o tal desbloqueio, a revelação, a compreensão, a nomeação do difuso. Eu precisava aterrissar. Por qual razão eu nunca tinha somado aquele dois mais dois? Jesus me mostrou: quando materializamos a névoa em palavra, o receio em termo – e o receio era trauma -, é mais possível tatear o caminho para o desmonte do medo.

(E eu que escrevi um livro chamado Ter medo de quê? pensando só no enfrentamento de gente, mas nunca de almas…)

É claro que o caminho desse tal desmonte é pessoal e tem um monte de etapas.

Passo 1: comecei apagando uma luz do corredor e deixando só mais uma lá no banheiro acesa. Sabia o que estava enfrentando, mas sou sempre parceira de um plano B, um airbag ou uma máscara de oxigênio no caso de despressurização. Vou sempre precisar de alguma luzinha acesa onde eu estiver. Modo sobrevivência. Deu certo. Logo, eu estava caminhando pelo corredor escuro sem medo de ser atacada. Havia uma luz no fim dele – ou melhor, atrás da porta.

Veio então a chance de passar temporadas em uma casa no meio do mato. Uma casa sonhada, um lugar idem, uma concretude à frente. Mas meu desejo e disponibilidade de estar nela nem sempre era o desejo e a disponibilidade de meu companheiro. O mesmo para meus amigos, família. E tinha algo que eu precisava admitir: eu queria muito estar ali, no meio do silêncio, sozinha. Eu queria autonomia, queria ser capaz de atravessar a noite para horas depois abrir a janela e me deparar com o cheiro, a cor e a explosão de uma manhã. Eu queria superar aquele medo.

Decidi sem aparentemente – eu disse aparentemente – racionalizar demais: eu iria sim sem ninguém e não passaria a noite em claro e apavorada. De volta do trabalho, dirigi por mais uma hora e fui, ouvindo Dory Previn e Tim Buckley, para a serra. Antes, meus queridos vizinhos do mato, da República das Juremas Pretas, me disseram que estariam por perto. Me senti mais segura.

Passo 2: debaixo de noite e de chuva, com farol ligado iluminando mato e lama, abri a porteira da casinha sonhada, entrei e estacionei.

(“Going home is such a ride, going home is such a ride”, dizia Dory Previn no som do carro)

Fiquei ouvindo o barulho da mata, da noite pesada. Senti o cheiro de casa velha e de chão frio de cimento. Peguei o telefone e falei com o meu amor: me sentia com 20 metros, me sentia forte. Contei-lhe que havia chegado e estava feliz e sem medo. Dormiria sozinha. Deixaria, é claro, uma luz acesa.

Mais tarde, vendo uma série (Euphoria), apareceu uma cena terrível. Eu percebi a névoa e o receio – o trauma – me rondando. Tinha um relaxante muscular para o caso de despressurização, a máscara de oxigênio para o caso do corpo retesado, a garantia que eu não iria me acordar a cada meia hora achando que a “alma” estava por perto.

Decidi tomar. Horas depois, as cobras ainda dormindo, os galos cantando, os chocalhos dos bodes blém-blém-blém, eu abri, pela primeira vez sozinha naquela casa, a janela azul do quarto.

Me deparei com o cheiro, a cor e a explosão de uma manhã. Atravessei o corredor escuro – com alguma ajuda química, com Jesus, com o desejo de matar algo. Ali, matei. Eu não tinha sido atacada.

Eu perdi o meu medo, o meu medo
O meu medo da chuva
Pois a chuva voltando pra terra
Traz coisas do ar
Aprendi o segredo, o segredo
O segredo da vida
Vendo as pedras que choram
Sozinhas no mesmo lugar

“Fabiana, você não está mais naquela casa, não é aquela criança, não está sozinha com ele. Aquilo não está acontecendo mais.”

***

(para ouvir: Medo, dos Titãs)

Fabiana Moraes é jornalista com doutorado em sociologia e professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa poder, representação, hierarquização social e a relação jornalismo e subjetividade. Três vezes finalista do prêmio Jabuti, é vencedora de três prêmios Esso e um Petrobras de Jornalismo. É autora de seis livros, entre eles O Nascimento de Joicy e A pauta é uma arma de combate (Arquipélago Editorial). Foi repórter especial do Jornal do Commercio. É também colunista no The Intercept Brasil. Antes, UOL e piauí. Quando tem tempo, paga de DJ nos inferninhos de Recife.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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