COLUNA

Fabiana Moraes

As bets e um país que viu as mortes violentas caírem — menos para as mulheres

Redução geral da violência no Brasil não alcança público feminino, em um cenário marcado por dívidas, jogos online e agravamento de conflitos dentro de casa

29 de Julho de 2026

Muita gente – incluindo eu mesma — comemorou os últimos dados apresentados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançado recententemente pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP): nele, ficamos sabendo que houve uma queda de 8,2% nas mortes violentas intencionais em 2025 no país, totalizando 40.775 casos. É uma notícia e tanto em se tratando de um país no qual temos medo de ir na esquina comprar pão e não voltarmos vivos para casa. É nosso menor número desde 2012.

Mas — infelizmente, há um grande e incontornável MAS — os números mostram que, para as mulheres, o caminho foi contrário: houve uma alta de 4% no número de feminicídios no ano passado, com 1.571 casos, enquanto em 2024 foram 1.504 crimes registrados. É um recorde desde a criação específica da pesquisa em 2015 — e esse recorde nos oferece a terrível imagem de quatro mulheres mortas por dia. Há ainda o fato nada periférico de estarmos lidando com um cenário de subnotificação.

Quero trazer para essa conta uma outra pesquisa importante, realizada a partir da Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), serviço do Ministério das Mulheres. Também em 2025, o CAM registrou assombrosos 1.088.900 de atendimentos, quase 3 mil por dia, um aumento de 45% em comparação ao ano anterior.Aí vem o murro, o pontapé, a faca, o tiro, a porrada: 70% dessas agressões foram realizadas dentro de casa.

Como pensar um país que diminuiu seus números de mortes violentas intencionais enquanto aumentou o número de violência contra mulheres, incluindo o feminicídio? Ainda não foram publicados estudos que possam nos mostrar um cenário exato, mas, de acordo com os relatos aqui expostos e as pesquisas realizadas no país e lá fora, é possível levantar uma suposição: a adesão de generosa parte do país às bets tem dedo nessa história. A diretora executiva do FBSP, Samira Bueno, chegou a comentar essa relação neste episódio do podcast “A Hora”.

A violência contra a mulher aparece não como exceção, mas como efeito colateral de um ecossistema que lucra com o risco

No assassinato da professora Soraya Tatiana Bonfim, 56 anos, em Minas Gerais, o que aparece na superfície é um filho endividado, viciado em apostas online, e uma discussão doméstica que “sai do controle”. Mas, se a gente olha com mais cuidado, o que está em jogo é outra coisa: a casa atravessada por uma economia da promessa (ganhar rápido, recuperar perdas, insistir mais uma vez) que, quando desmorona, não fica do lado de fora. Matteos França Campos, 32 anos, matou a própria mãe, enforcada. Antes do crime, os dois brigaram: o ex-funcionário público acumulava dívidas por conta de apostas online. Em um caso recente em Jataí (GO), uma mulher conseguiu na Justiça tirar o marido de casa depois que o vício em apostas deixou de ser um problema financeiro e virou risco concreto à sua segurança. Dívidas, pressão e envolvimento com agiotas transformaram o ambiente doméstico em espaço de ameaça. Neste relato lido no Reddit, compreendemos que a devastação do vício em apostas também destrói famílias homoafetivas.

 Reprodução

No caso acima, noticiado no portal HNT, a mulher (sobrevivente) é enforcada pelo marido depois de questionar o dinheiro gasto no “tigrinho”. A violência vem no exato momento em que ela tenta intervir no colapso financeiro da casa. O que chama ainda mais atenção é o entorno: a mesma página que relata o estrangulamento é atravessada por banners e promessas de ganho fácil, como se a engrenagem que produz o conflito também financiasse sua narrativa. A violência contra a mulher aparece, então, não como exceção, mas como efeito colateral de um ecossistema que lucra com o risco, inclusive enquanto o noticia. Volto em breve para falar sobre publicidade de bets e imprensa.

Há também um outro movimento, menos visível, como mostra o estudo “Seeking Solace in Gambling: The Cycle of Gambling and Intimate Partner Violence Against Women Who Gamble” (Buscando Alívio no Jogo: O Ciclo do Jogo e a Violência por Parceiro Íntimo contra Mulheres que Jogam): mulheres que entram no jogo tentando sair da violência. A pesquisa com vítimas de parceiros abusivos mostra que muitas começam a apostar depois de viver sob controle, ameaça e humilhação. Jogam para escapar — da casa, da cabeça, da falta de dinheiro — e para tentar retomar algum controle sobre a própria vida. Mas, no fim, o jogo vira extensão da violência: quanto mais elas jogam, mais se endividam e mais presas ficam — ao parceiro, ao vício, ao mesmo circuito que promete fuga e entrega mais controle.

No Brasil, alguns estudos já apontam para a relação entre bets e aumento de violência contra mulher. O primeiro é “Dia de Jogo: Uma análise da relação entre futebol e violência doméstica no Brasil entre 2015 e 2019”, de Yuri Batista Schäffer (PUC/RS). A dissertação de Yuri, defendida em 2024, usa as casas de apostas como fonte das probabilidades que geram as expectativas dos torcedores. Ou seja, as apostas entram como instrumento de medição do “choque emocional” que pode levar aos atos de violência.

“O futebol pode desempenhar um papel significativo na dinâmica emocional e comportamental das pessoas, despertando sentimentos que podem ir de euforia a frustração, podendo servir de gatilho para agressões contra a mulher e, em sua última instância de agressão, o feminicídio”, escreve o pesquisador, que realizou a análise com foco no Brasileirão e na Copa do Brasil, utilizando o número de homicídios femininos retirados do DATASUS.

A violência doméstica sobe quando entra em cena a frustração masculina também pelas apostas: o que se perde no jogo, se descarrega dentro de casa

Ele criou variáveis de expectativas para verificar se o resultado esperado pelas casas de apostas eram ou não confirmados pelos resultados dos jogos. As variáveis: Ter jogo (“Teve Jogo”); Expectativa de Vitória; Expectativa Frustrada (esperava vitória, veio derrota); Expectativa Surpresa (esperava derrota, veio vitória). O resultado aponta para uma maior probabilidade no número de mortes nos dias em que há jogos. Também há indícios de que frustração e euforia elevam os casos de mortes em dias de jogos, enquanto vitórias esperadas do time da casa tendem a reduzir esse número. No geral, os achados dialogam com a literatura: embora o feminicídio tenha raízes estruturais, gatilhos psicológicos podem intensificar agressões em momentos específicos. No fim deste texto, publicamos as tabelas de análise a partir do trabalho de Yuri.

Outro estudo, publicado em abril deste ano, reforça o padrão: a violência doméstica sobe quando entra em cena a frustração masculina também pelas apostas. Analisando mais de 2 mil jogos do Brasileirão, as economistas Isadora Bousquat Árabe e Paula Carvalho Pereda mostram que, quando o time perde sendo favorito, os registros aumentam cerca de 6% nas horas seguintes. Onde não há rede de atendimento, o efeito aparece no Ligue 180, com alta de 28% no dia seguinte. Não é um desvio, mas um mecanismo: o que se perde no jogo, se descarrega dentro de casa. Esta reportagem da Agência Pública explicita esse circuito, inclusive com relatos de mulheres que passaram a sofrer agressões com a chegada das bets, escancarando como esse ecossistema amplia tensões já existentes.

O não da imprensa

Falando na Pública, o veículo integra o coletivo de 15 meios de imprensa que decidiram dizer não ao dinheiro das bets. Publicaram editoriais, alinharam discurso e assumiram publicamente que há um limite entre financiar jornalismo e se tornar extensão de um mercado que cresce sobre endividamento, compulsão e vulnerabilidade. É justamente o que vimos no caso do portal HNT, mais acima. Mas não são apenas os “pequenos” que veiculam anúncios de apostas: um importante estudo do Aos Fatos levantou 49.979 peças de publicidade divulgadas entre janeiro de 2024 e março de 2025 nos dez veículos de imprensa mais acessados do Brasil. O resultado mostra que o Metrópoles foi o veículo noticioso com mais anúncios (17.833). Depois, veio o IG (15.751), ClicRBS (6.312) e o R7 (5.571).

A negativa às bets (os veículos são Agência Lupa, Agência Pública, Alma Preta, Amado Mundo, Aos Fatos, Manual do Usuário, Matinal, Meio, Mobile Time, My News, Notícia Preta, NeoFeed, Plural, Portal Imprensa e Reset) é corajosa também por se dar em um cenário de forte pressão comercial no jornalismo, um cenário no qual é comum aceitar anúncios de um setor que se infiltrou em tudo, inclusive na narrativa jornalística. A Gama não publica anúncios de bets e usa bloqueios para que eles não sejam veiculados em suas páginas — quando esse mecanismo falha, a revista solicita diretamente pela retirada.

Em outra ponta, o Governo Federal vem tentando apagar o fogo: o presidente Lula já fez uma relação entre a violência e as apostas. Nesta semana, o Ministério da Saúde lançou uma campanha para falar de apostas — está tentando dar conta de um estrago que impacta o Bolsa Família. Um estrago que não começou agora: foi sendo aberto nos governos de Michel Temer (que agora faz um mea culpa) e Jair Bolsonaro, quando as apostas online foram liberadas e se espalharam sem regulação efetiva, tornando-se parte do cotidiano. Este texto do Aos Fatos explica o processo de maneira excelente.

A campanha orienta sobre sinais de uso problemático e indica caminhos de cuidado no SUS, com atendimento remoto e gratuito para quem já perdeu o controle – e também para quem vive ao redor disso. O acesso é via Meu SUS Digital, com um teste que mede o nível de risco e encaminha para acompanhamento quando necessário. Há ainda a possibilidade de autoexclusão das plataformas.

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Conversei com o advogado Rodrigo de Abreu Pinto, presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais (IFD), sobre os limites da responsabilização das plataformas, gargalos regulatórios e políticas públicas que possam dar conta dos impactos que os jogos online possuem hoje na sociedade brasileira. A violência contra as mulheres, é claro, deve fazer parte desse esforço. Leia aqui.

Tabela extraída de “Dia de Jogo: Uma análise da relação entre futebol e violência doméstica no Brasil entre 2015 e 2019”, de Yuri Batista Schäffer (PUC/RS)

Fabiana Moraes é jornalista com doutorado em sociologia e professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa poder, representação, hierarquização social e a relação jornalismo e subjetividade. Três vezes finalista do prêmio Jabuti, é vencedora de três prêmios Esso e um Petrobras de Jornalismo. É autora de seis livros, entre eles O Nascimento de Joicy e A pauta é uma arma de combate (Arquipélago Editorial). Foi repórter especial do Jornal do Commercio. É também colunista no The Intercept Brasil. Antes, UOL e piauí. Quando tem tempo, paga de DJ nos inferninhos de Recife.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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