COLUNA

Círculo de Poemas

Outras odisseias

O coordenador do Círculo de Poemas, Tarso de Melo, analisa um poema de Edimilson de Almeida Pereira, do livro “A Morte Também Aprecia o Jazz”

12 de Novembro de 2025

Outro dia me deparei com a informação de que há mais de 120 milhões de refugiados no mundo. Cento e vinte milhões de pessoas que, forçadas por diversas formas de violência, tiveram que sair do lugar onde viviam para tentar encontrar outro para sobreviver. Nada disso é fácil: sair de um lugar, chegar a outro, ser acolhido, começar a reconstruir a vida com sua família. Se não bastasse, quando essas etapas são vencidas, é comum que o refugiado venha a se embrenhar noutra trama de violência, que é a do trabalho precário nas grandes cidades do mundo, e passe a experimentar também as péssimas condições de vida reservadas aos trabalhadores pobres mesmo nas nações mais ricas.

O poeta mineiro Edimilson de Almeida Pereira — que está lançando “Poesia & Agora” (Mazza Edições), um box com dois grandes volumes que reúnem 28 livros publicados entre 1985 e 2017 — é autor de um dos poemas mais admiráveis sobre a condição dos refugiados em meio a essas camadas de violência, suspensos entre a vida que se tornou impossível e a que tentam tornar possível. Trata-se de “Odisseia”, um poema em oito partes que está em “A Morte Também Aprecia o Jazz”, de 2023. É assim a parte final:

*

VIII. NOITE

A noite
se anuncia no posto de vigilância.
Mesmo que sugasse
a galáxia
não registrariam sua presença.
Sua língua não conta.
O rio
e a ponte não dão passagem
a quem se desespera
entre salvar uma foto ou viver
para fotografar-se.
Homens blindados não enxergam
a sombra
e o campo ao redor.
Não lidam com essa mãe anterior
à guerra.
Estão surdos
armados contra o que é pluma.
A noite, contudo, vem
atravessando o próprio manto.

*

Na “Odisseia” de Homero, conta-se a heroica jornada de Ulisses voltando para casa após o fim da guerra da Troia. Na “Odisseia” de Edimilson, no entanto, os odisseus não têm uma casa para voltar. Talvez sejam heróis, mas estão à deriva tentando encontrar um outro lugar para chamar de casa. Gostariam de reconstruir a vida com aquilo que não lhes foi tomado, mas as portas estão fechadas (“por todo lado uma cerca”). Tornam-se atendentes, carregadores, entregadores; são trabalhadores de aplicativos: “Caixa amarela GLOVO/ sobre o corpo negro palavras/ quadradas em veloz bicicleta”.

Recomeçar a vida ‘do outro lado do arame’ é a aventura, é a odisseia

Recomeçar a vida “do outro lado do arame” é a aventura, é a odisseia. Os heróis têm algum documento na mão que não serve para muita coisa, porque há sempre soldados entre sua realidade e qualquer sonho. Pesa sobre eles a sombra do pesadelo, como no caso da agricultora etíope Agitu Gudeta, relembrado na segunda parte do poema: considerada um exemplo de integração bem-sucedida dos refugiados na sociedade italiana, ela foi morta a marteladas após sofrer violência sexual dentro de seu apartamento. O acusado? Um trabalhador também refugiado que ela havia empregado.

O poema de Edimilson fotografa de maneira aguda a dilaceração dessas vidas que precisam se refazer em lugares em que “sua língua não conta”. Deixar a terra (“essa mãe anterior/ à guerra”), deixar para trás suas 20 cabras para fugir de um míssil: “quem nunca perdeu a terra/ sob os sapatos não imagina o que é/ ser expulso de sua ilha de cabras”. Sim, não podemos imaginar o que é, por dentro, a vida de alguém forçado a renascer: outra cidade, outra língua, outra batalha. De novo, de novo. Cento e vinte milhões de vezes.

Produto

  • A morte também aprecia o jazz
  • Edimilson de Almeida Pereira
  • 2023
  • 144 páginas

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Círculo de Poemas é a coleção de poesia e clube de assinatura da editora Fósforo, que lança duas publicações por mês de poetas das mais diferentes gerações, línguas e tendências. Todo mês, um poema da coleção é comentado pelo coordenador do Círculo, Tarso de Melo.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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