COLUNA

Círculo de Poemas

Mamaluco genial

O coordenador do Círculo de Poemas, Tarso de Melo, apresenta a poesia de Sebastião Nunes

15 de Maio de 2026

“Houve certa época em que os escritores me jogavam para as artes plásticas, e vice-versa. Para mim essa questão não tem a menor importância” — do alto dos seus atuais 87 anos, é assim que Sebastião Nunes vê seu lugar como poeta no mundo. Nascido em Bocaiúva (MG), ele acaba de lançar “Antologia Mamaluca”, organizada por Fabrício Marques, pelo Círculo de Poemas, reunindo num único volume a mais ampla mostra de sua produção poética. Entre a primeira publicação, em 1968, e se declarar ex-poeta, em 1989, Tião foi o que se costuma chamar de “poeta experimental”, na falta de palavra melhor para lidar com um artista que nunca trabalhou com o que estava consolidado — muito menos consagrado — em termos estéticos. Bem longe disso. Sua paixão é a dos que fogem dos caminhos suaves e inventam novas rotas para a linguagem poética. Custe o que custar.

Sua paixão é a dos que fogem dos caminhos suaves e inventam novas rotas para a linguagem poética. Custe o que custar

Raro, único, inclassificável: o nome de Sebastião Nunes costuma vir acompanhado desses adjetivos que, em grande medida, são justos, mesmo sabendo que ele faz parte de uma geração de artistas igualmente inquietos e brilhantes, aquela que chegou à praça no mesmo momento em que o país se afundava nos porões da ditadura.

O lugar de Sebastião, no entanto, é um pouco mais deslocado do que o de seus pares de geração. Com sua “poética de provocação”, ele sempre entregou objetos incomodamente híbridos, buscando caminhos cruzados entre o livro e o cartaz, o poema e a colagem, a brochura e o envelope, a língua oficial e o baixo calão, a lucidez e a loucura.

Tudo é estranhamente velho e novo, tudo é vivo e ácido, porque Sebastião trabalha subvertendo e corroendo, deslocando e colocando em choque

Os novos leitores do poeta, que vão se deparar na estante com a “Antologia Mamaluca”, serão surpreendidos por essa mescla de texto e imagem (com vantagem para esta) que conflita, de pronto, com as ideias mais assentadas de “poema”. No entanto, diante de cada página, será assaltado pela sensação de que já viu aquelas coisas (frases, fotos, ilustrações, fontes etc.) em algum lugar, mas não daquela maneira. Tudo é estranhamente velho e novo, tudo é vivo e ácido, porque Sebastião trabalha subvertendo e corroendo, deslocando e colocando em choque. Por trás de uma estrofe, vem uma rasteira; sob uma bela capitular, esconde-se um escândalo; à sombra da epígrafe, a falsificação mais descarada.

Por tudo isso, entrar no universo sarcástico de Sebastunes Nião (uma das embaraçosas variações de sua assinatura) é das experiências mais deliciosas que um leitor pode ter. E é preciso alertar: esse mamaluco, que se apresenta como “um dos 10 mil candidats ao títul de ‘maior poet brasileir viv’, um dos 10 milhões de candidats ao Prêmio Nobel de Literatur, um dos 10 melhors escritors de Bocaiúv, MG”, sempre soube muito bem o que estava fazendo, inclusive pela forma como cuidou da edição e circulação igualmente inovadoras de cada obra. Como disse Clarice Lispector numa carta ao poeta em 1973, Sebastião Nunes nos atinge “como uma seta atinge o alvo”. Alguém ousa discordar?

Produto

  • Antologia Mamaluca
  • Sebastião Nunes
  • Círculo de Poemas
  • 296 páginas

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Círculo de Poemas é a coleção de poesia e clube de assinatura da editora Fósforo, que lança duas publicações por mês de poetas das mais diferentes gerações, línguas e tendências. Todo mês, um poema da coleção é comentado pelo coordenador do Círculo, Tarso de Melo.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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