O Brasil de Emicida tem o rosto de Dona Jacira

Ativista e vereadora do Rio de Janeiro, Thais Ferreira, continua o debate proposto pelo artigo “Primeiros governos Lula responderam ao Brasil dos Racionais MC’s. Saberemos responder ao Brasil de Emicida?”, do colunista da Gama, Pedro Abramovay

Thais Ferreira 09 de Junho de 2026

Quando li o artigo de Pedro Abramovay sobre o Brasil de Emicida, uma pergunta não saiu da minha cabeça. Se Lula, Mano Brown e Emicida ajudaram a formular alguns dos sonhos coletivos mais importantes do Brasil, quem ajudou a formular os sonhos deles?

Abramovay acerta ao identificar uma mudança importante no imaginário brasileiro. Se os primeiros governos Lula responderam ao Brasil narrado pelos Racionais MC’s, marcado pela fome, pela exclusão e pela busca por inclusão material, talvez o Brasil de hoje deseje algo mais. Deseje tempo, descanso e cuidado. Deseje a possibilidade de viver para além da sobrevivência. Mas, existe uma pergunta anterior: de onde veio esse desejo?

O próprio Emicida parece oferecer uma pista. A primeira faixa de sua obra mais recente, “Emicida Racional VL 2 – Mesmas & Mesmos Valores”, é ocupada apenas pela voz de Dona Jacira. Antes da música, da poesia e da interpretação sobre o Brasil, vem a mãe. Vem a mulher que ajudou a construir a visão de mundo a partir da qual esse Brasil é narrado.

Ao olhar para a trajetória de homens como Lula, Mano Brown e Emicida, encontramos algo em comum. Antes dos discursos, das músicas e dos projetos de país, encontramos mães.

Dona Lindu.
Dona Ana.
Dona Jacira.

Mulheres trabalhadoras, muitas vezes responsáveis sozinhas pela sustentação material, emocional e moral de suas famílias. Não é coincidência que os homens que ajudaram a formular alguns dos mais importantes sonhos coletivos do Brasil tenham sido profundamente marcados pelos ensinamentos de suas mães.

Lula aprendeu com Dona Lindu que dignidade não é luxo.
Brown aprendeu com Dona Ana que sobreviver não basta.
Emicida aprendeu com Dona Jacira que prosperidade sem afeto é pobreza com outro nome.

 Dona Jacira, no clipe da música “Mãe”, de Emicida

Mas existe uma contradição que atravessa a nossa história. As mães produzem os valores que organizam a sociedade, mas raramente são reconhecidas como organizadoras das possibilidades políticas dessa mesma sociedade.

Quando um presidente fala sobre justiça social, chamamos isso de liderança. Quando uma mãe ensina solidariedade dentro de casa, chamamos isso de obrigação.

Quando um artista transforma afeto em poesia, celebramos sua sensibilidade. Quando uma mulher sustenta afetivamente uma família inteira por décadas, chamamos isso de amor materno.

Talvez o maior apagamento da nossa vida pública seja tratar como natural aquilo que deveria ser reconhecido como inteligência política. Porque quem produz os valores, os afetos, os vínculos e os horizontes que tornam uma sociedade possível está fazendo muito mais do que cuidar. Está produzindo futuro.

O Brasil de Emicida não surge do nada, ele tem genealogia, tem endereço, tem colo e tem memória. O Brasil de Emicida tem o rosto de Dona Jacira

No Brasil, milhões de lares são sustentados por mulheres. São elas que organizam orçamento, alimentação, educação, saúde, deslocamento, proteção e pertencimento. Administram diariamente a escassez, o conflito, a urgência e a esperança. Ainda assim, seguimos tratando essa experiência como
responsabilidade privada e não como conhecimento público.

As mães estão entre as primeiras pessoas a perceber quando uma escola não funciona, quando um posto de saúde falha, quando a violência avança, quando a fome retorna, quando uma criança perde a esperança. Elas não observam os problemas da sociedade, elas administram seus impactos diariamente.

Ainda assim, seguimos organizando o poder como se a experiência de sustentar a vida tivesse pouco a ensinar sobre como governá-la, e talvez seja por isso que o Brasil tenha dificuldade de responder ao desejo que Emicida traduz. Porque o que ele canta não nasceu em gabinete, nem no mercado, nem no algoritmo. Nasceu nos quintais, nas crianças, nos quadris, nos pesadelos, nas lições de casa, nas cozinhas, nos pontos de ônibus, nas filas de posto de saúde, nas casas chefiadas por mulheres que aprenderam a transformar escassez em sobrevivência e sobrevivência em sonho.

O Brasil de Emicida não surge do nada, ele tem genealogia, tem endereço, tem colo e tem memória. O Brasil de Emicida tem o rosto de Dona Jacira. E talvez a questão mais urgente para o nosso tempo não seja apenas se saberemos responder ao Brasil de Emicida. A pergunta é se finalmente estaremos dispostos a ouvir as mulheres que, há gerações, vêm produzindo os valores que tornam qualquer futuro possível.

Quando uma mulher sustenta afetivamente uma família inteira por décadas, chamamos isso de amor materno. Talvez o maior apagamento da nossa vida pública seja tratar como natural aquilo que deveria ser reconhecido como inteligência política

Porque uma sociedade que depende das mães para produzir o futuro, mas lhes concede tão pouco poder para decidir que futuro será esse, revela algo sobre si mesma. Revela que ainda reconhece o cuidado como sacrifício, mas não como liderança. Confiamos às mães a tarefa de formar cidadãos, mas raramente a autoridade para formular os rumos da sociedade. Recorremos a elas para produzir o futuro, mas não para decidir que futuro queremos construir.

Talvez a dificuldade de responder ao Brasil de Emicida não esteja apenas na falta de imaginação política. Talvez esteja no fato de continuarmos ignorando as mulheres que, há gerações, vêm produzindo a matéria-prima de qualquer futuro possível.

Enquanto continuarmos tratando como coadjuvantes as mulheres que ensinaram Lula a sonhar, Brown a resistir e Emicida a imaginar, continuaremos confundindo liderança com autoria.

E uma democracia que não reconhece suas autoras dificilmente reconhecerá seu futuro.

Thais Ferreira é ativista, pesquisadora e formuladora de políticas públicas. Especialista em políticas para mulheres e infâncias (UNASUS), dedica sua trajetória à reflexão e à construção de iniciativas voltadas ao cuidado, às maternidades, às infâncias e à justiça social. É mãe de três meninos e vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL.