Reinaldo Moraes e a tentativa de meditação — Gama Revista
E meditar, já tentou?
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Depoimento

Minhas aventuras pelo espaço mental

Reinaldo Moraes bem que tentou — por apenas 5 dias é verdade — mas meditar é tarefa árdua demais para um escritor apegado às suas próprias ansiedades

Reinaldo Moraes 31 de Maio de 2020

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Depoimento

Minhas aventuras pelo espaço mental

Reinaldo Moraes bem que tentou — por apenas 5 dias é verdade — mas meditar é tarefa árdua demais para um escritor apegado às suas próprias ansiedades

Reinaldo Moraes 31 de Maio de 2020

Vamos lá. Headspace. Espaço da cabeça. Aplicativo de meditação. Já percebi que a minha cabeça tem duas bandas, a destra e a sinistra. Só que a sinistra não me adestra. E a destra é meio sinistra. Ou seja, não confio muito na minha cabeça. Então, vamos lá ver o que esse headspace pode fazer por essa senhora temperamental da qual miseravelmente dependo tanto pra viver.

Clic: escolho o programa de 10 sessões de 10 minutos cada. Na real, pretendo fazer só cinco sessões, pra ver como é. Se descobrir que nasci pra meditar, do que duvido um pouco, estendo a experiência por mais cinco sessões. Pode ser que esses 10 minutos diários me dêem a chave de algum portal que se abra para a compreensão expandida do que seja a minha vida, o mundo, o universo. Ou a minha própria mente, o que já estaria de bom tamanho, visto que nem eu posso fugir dela, nem ela de mim.

DIA 1

“Sinto um pouco de sono”

Com sua voz quase suavíssima, quase de nãna-nenem, o instrutor me manda sentar o mais ereto possível, numa cadeira ou no chão. Escolho a mesma cadeira giratória onde me aboleto todos os dias pra trabalhar no computador. Ele sugere que eu traga o foco da mente pra respiração, pra postura da espinha, pro peso do corpo, tal como sentido na planta dos pés, apoiadas no chão, e as palmas das mãos, que descansam sobre o dorso das pernas, e também pros sons ao redor.

O tempo passa rápido. Nas várias etapas da sessão, o instrutor me manda soltar a cabeça, deixando-a livre pra ir onde quiser. Faço isso, esperando que ela volte a pousar sobre o meu pescoço, pois, apesar dos problemas que costuma me trazer, conto com a cachola pra viver.

Em seguida, meu novo amigo me instrui a trazer o foco mental de volta pro corpo, pra respiração, e, daí, outra vez, pro entorno. O instrutor faz uns hiatos de silêncio enquanto eu tento obedecer aos seus melífluos comandos. Sinto um pouco de sono.

Quando dou por mim, já se passaram os dez minutos. O instrutor sugere que eu preste atenção em como estou me sentindo. Tirando algum desconforto postural, passo bem, obrigado. Curioso para saber como vai ser a sessão de amanhã.

DIA 2

“Espinha ereta, a mente quieta”

De novo, a mesma rotina: espinha ereta, respiração consciente, etc. O instrutor insiste em que não devo combater meus pensamentos. Mas não há menção aos sentimentos. Esse, talvez, seja o grande truque da meditação: fazer a mente se circusncrever ao concreto imediato, ao corpo e ao entorno, deixando de lado o emocional. Hoje, como ontem, percebo a dificuldade de manter a espinha ereta, a mente quieta e o coração tranquilo, como prescrevia o Walter Franco. Chego a cogitar abri-los pra ver na tela quanto tempo falta pra acabar a sessão. Mas me contenho.

DIA 3

“O tempo começa a se arrastar”

O instrutor sugere que eu veja uma animação de uns 2 minutos comparando o turbilhão de ideias, impressões, sensações, sentimentos e emoções, que formam o fluxo mental, ao fluir intenso e caótico do trânsito. O objetivo maior da meditação não seria eliminar cada uma dessas interferências, nem mesmo o de ordená-las, como um Detran mental, mas, sim, conviver com esse movimento todo sem perder a noção de mim mesmo, começando pelo corpo.

De novo os exercícios respiratórios, que incluem contar as respirações. Não consigo passar de um… dois… três. A partir daí, passo a pensar em outras coisas. O poeta Mário Quintana já disse que o homem, e imagino que a mulher também, é o animal que pensa em outras coisas. Eu sou esse animal. E confesso que senti hoje certa impaciência com esse papo de contar a respiração, prestar atenção na postura, no corpo, nos sons ao redor, e coisa e tal.

No meio de um dos longos períodos de silêncio do instrutor, pensei: o que será que ele foi fazer? Passar um café, dar uma mijadinha, sapear o whatsapp? Abri descaradamente os olhos pra ver quanto tempo faltava pro fim da sessão: 4 minutos. O tempo começa a se arrastar.

DIA 4

“Não me vejo meditando depois de escovar os dentes”

O instrutor abriu a sessão me aconselhando a atrelar o exercício de meditação a qualquer evento rotineiro e incontornável do meu dia a dia, tal como escovar os dentes de manhã, de modo a entronizar automaticamente a meditação no meu cotidiano. Acontece que não me vejo meditando depois de escovar os dentes. Talvez seja mais fácil usar a evacuação de gancho mnemônico. Sentado no trono de louça, à espera do movimento peristáltico, eu já poderia dar início à meditação. É uma ideia. Vamos ver. Por ora, ocupo a mesma poltrona giratória defronte ao meu velho desktop.

No mais, rotina normal nesse quarto dia: respiração, corpo, foco mental, etc. No final, o instrutor insiste mais uma vez em que eu não saia disparado de encontro aos afazeres do dia, mas pare um pouco pra pensar em como estou me sentindo depois da meditação. Faço isso e rapidamente concluo que estou ansioso pra entrar de sola no romance que estou escrevendo. Ou seja, mal acabei de meditar, já caio nos braços da ansiedade, minha velha e fiel companheira.

DIA 5

“Esse negócio funcionaria melhor pra mim sob gravidade zero”

Outra vez o instrutor pede a minha atenção prum filminho comparando o controle da mente à doma de um cavalo. Primeiro, você dá corda pro cavalo zanzar à vontade. Com o passar dos dias, vai encurtando a corda, até trazer o bicho pra perto de si, já bem mais dócil.

Vejo o filme, ouço as considerações do instrutor sobre a analogia mente/cavalo xucro, e entro na mesma rotina: respire fundo, vá fechando os olhos devagar, deixe a mente solta, deixe ela ir onde quiser, traga o foco de volta pro corpo, e assim por diante.

E, pronto, acabou. Ao cabo de 5 dias, com os pulmões bem arejados e um insistente desconforto na espinha, considero-me suficientemente meditado. Acho que esse negócio funcionaria melhor pra mim sob gravidade zero, o que espero ainda ter tempo de desfrutar, se o Elon Musk não demorar muito em aprontar aquele ônibus espacial pra turistas. E, claro, se eu tiver sobrando no bolso os dois milhões de dólares que deverá custar a passagem.

Pra ser franco, e sem querer ofender o paciente instrutor do Headspace e os milhões de meditadores que buscam o tal de equilíbrio psicossomático, holístico, homeostático, ou lá que nome tenha esse tão almejado estado de graça, eu diria que é bem próxima de zero a minha chance de me tornar um Pensador, do Rodin. Não pretendo passar os dias e os anos sentado lá no boulevard Raspail, em Paris, de queixo apoiado no punho, meditando mil horas sem fim. E peladão, ainda por cima.

Reinaldo Moraes é escritor. Estreou na literatura em 1981 e, desde então, publicou oito livros, entre eles “Umidade” (Companhia das Letras, 2005) e “Pornopopéia” (Objetiva, 2009), “O Cheirinho do Amor” (Alfaguara, 2014) e “MAIOR QUE O MUNDO” (Alfaguara, 2018). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.